Inteligência artificial e algoritmos

A armadilha ética do “impulso humano” (a)crítico na era da inteligência artificial: reflexões éticas e desafios no pós-humanismo 106 discursos, pois a violência em si na sociedade complexa é (ou pode ser) uma via de mão dupla. Nas discussões contemporâneas sobre ética e tecnologia, há um consenso que parece generalizado, principalmente nos estudos dos direitos humanos, em torno da necessidade de colocar o ser humano no centro dos processos decisórios, especialmente no desenvolvimento e na regulação da inteligência artificial (IA). Esse “impulso humanitário” (Mellamphy, 2021), frequentemente defendido como um caminho ético e moralmente correto, parte da premissa de que o controle humano seria a solução para os riscos associados à autonomia tecnológica. Contudo, essa lógica, embora intuitiva, falha ao ignorar um aspecto essencial: o ser humano não é uma entidade homogênea ou necessariamente benevolente. Em sociedades marcadas por profundas desigualdades e conflitos identitários, homens não agem sempre “em prol dos homens”; ao contrário, muitas vezes perpetuam violência, dominação e exclusão. Essa reflexão exige uma inversão da lógica tradicional que orienta esse debate tradicionalmente. Se, por um lado, o controle humano é necessário para mitigar danos, por outro, ele pode ser o catalisador de novas formas de opressão, especialmente quando associado a ideologias extremistas, agendas econômicas neoliberais ou discriminações estruturais. Exemplos históricos e contemporâneos, como a ascensão de figuras políticas polarizadoras, evidenciam que o “impulso humanitário” acrítico pode reforçar desigualdades ao invés de superá-las. A partir dessa perspectiva, o objetivo da presente pesquisa é analisar criticamente o conceito de “controle significativo” e suas implicações éticas, demonstrando como a ausência de parâmetros claros e contextualizados pode transformar a humanidade — supostamente o centro moral dessas discussões — no maior obstáculo para a construção de um futuro tecnológico mais justo e inclusivo, especialmente quando examinado à luz do pós-humanismo. Para tanto, partimos do seguinte problema de pesquisa: como o “impulso humanitário” na era das máquinas, sob a perspectiva do pós-humanismo, pode contribuir simultaneamente para a construção de uma ética inclusiva no uso da IA e para a legitimação de narrativas totalizantes que reforçam estruturas de poder, vigilância e dominação?

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