A armadilha ética do “impulso humano” (a)crítico na era da inteligência artificial: reflexões éticas e desafios no pós-humanismo 108 forme as relações sociais se diversificam e se entrelaçam permeadas pelas tecnologias da informação e comunicação (TICs) em meio à era digital, cuja principal característica é a dataficação dos agentes meios bem como o avanço intenso de ferramentas como a IA. Nesse contexto o pós-humanismo pode nos oferecer bons insights quanto à relação do homem com a máquina, porém falar sobre pós-humanismo não significa, necessariamente, defender melhorias tecnológicas para os humanos conforme comumente associamos. Na realidade, muitos pesquisadores entendem inexistir uma única definição de pós-humanismo em razão da ausência de consensualidade ao defini-lo, pois ele envolve diferentes teorias e perspectivas (Miah, 2008, p. 71). A modernidade pós-iluminista encontrou expressão em uma variedade de futuros otimistas ligados ao neoliberalismo, sendo talvez o mais popular a narrativa do transumanismo ou extropianismo, que envolve a assimilação ou superação do humano na máquina supra-humana (Banerji; Makarand, 2016, p. 2). Já, o pós-humanismo adota uma visão crítica desse cenário, questionando sua ruptura triunfalista em relação ao animal, sua cumplicidade com a política de classes do grande capital e seu investimento fantasioso no patriarcado. Aliás, no que tange à relação do homem com o que lhe cerca, historicamente, o antropocentrismo, profundamente enraizado na história do pensamento ocidental, justifica a dominação humana sobre não-humanos, relegando-os a um status instrumental (Mellamphy, 2021, p. 13) e de serventia, uma vez que essa linha de pensamento inaugura uma corrente que coloca o homem em uma posição central no universo. Essa noção embasa inúmeros estudos sobre direito ambiental, sustentabilidade e direito animal, porém emmeio a era digital precisamos considerar as máquinas como componentes relevantes e ativos no contexto ou corpo social e na forma com a qual a sociedade opera cotidianamente nas mais diversas searas. Daí entendemos a importância de considerarmos a corrente de pensamento pós-humanista para entender essa relação que também é, talvez não por natureza, complexa. Logo, temos que o pós-humanismo não diz respeito somente aos avanços tecnológicos, embora a tecnologia tenha um papel central em suas discussões. A ideia central do termo “pós-humano” su-
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