111 Mateus de Oliveira Fornasier, Fernanda Viero da Silva e Marco Antonio Compassi Brun Com isso, em função desses contrastes gerados pela ocorrência de grupos sociais marginalizados, fruto de desigualdades sociais históricas, surgem narrativas identitárias e a sociedade complexa se segmenta, uma vez que se originam não grupos sociais que não só têm os mesmos ideais por terem uma vivência coletiva e uma cultura semelhante, mas que buscam os mesmos objetivos e têm uma mesma visão de mundo. Logo, as desigualdades sociais latentes geram grupos sociais que têm suas próprias narrativas identitárias. Nesse contexto, é pertinente recuperar a reflexão de Élisabeth Roudinesco, a qual, em sua obra intitulada Eu, soberano (2022), questiona se a busca por uma soberania absoluta do eu não resultaria, paradoxalmente, na fragmentação do tecido social e no enfraquecimento dos vínculos coletivos. Afinal, a autonomia plena do sujeito se revela ilusória, uma vez que estamos sempre atravessados por estruturas políticas, culturais e psíquicas que condicionam nossa existência (Roudinesco, 2022, p. 216-217). Ainda assim, essa fragmentação identitária encontra, na sociedade contemporânea, um campo propício para a consolidação de perspectivas políticas baseadas na polarização entre grupos. Dessa forma, a política se inscreve não apenas nas grandes instituições, mas também nas dinâmicas cotidianas de pertencimento e exclusão, reforçando a lógica do “nós contra eles” e ampliando as distâncias identitárias que estruturam o tecido social. Para Angelo e Fogaça (2024, p. 16), os sistemas simbólicos por sua vez, formam a base da estrutura de dominação, desempenhando um papel essencial tanto na construção das identidades quanto nas interações com o outro. Esses sistemas conseguem exercer sua função estruturante porque são previamente estruturados. Nesse contexto, a dominação, seja estruturada ou estruturante, permite que uma classe legitime sua superioridade sobre outra, configurando o que é denominado de violência simbólica. Ainda, discursos totalizantes em maior ou menor grau tendem a perder-se progressivamente em derivas sob forma de um “narcisismo das pequenas diferenças” (Roudinesco, 2022, p. 216). Com a globalização, as identidades passam a ser vinculadas à representatividade e ao discurso, especialmente na modernidade tardia, a partir da década de 1950 (Angelo; Fogaça, 2024, p. 16). Segundo Giddens (2002, p. 38), a modernidade tardia transforma a forma como as relações são vivenciadas, baseando-se na razão como
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