A armadilha ética do “impulso humano” (a)crítico na era da inteligência artificial: reflexões éticas e desafios no pós-humanismo 118 O uso de algoritmos de IA em processos de recrutamento por exemplo, no setor privado, regido pela lógica neoliberal da maximização de lucros, levanta uma questão fundamental: até que ponto a seleção de candidatos é inerentemente ética? A ausência da intervenção humana garantiria maior justiça, ou seria justamente essa intervenção que perpetua os vieses que tanto criticamos? Embora grande parte dos estudos se concentrem nos riscos e estratégias para mitigar os impactos dessas tecnologias, é inevitável perceber que tais vieses são reflexos de ideologias sociais enraizadas historicamente e presentes nas práticas humanas. Seria o homem o “agente do caos”? Com isso, é possível nos questionarmos se o desconforto gerado pelos sinistros da tecnologia não está apenas relacionado ao medo de sua autonomia ou complexidade, mas à forma como ela escancara e amplifica problemas já existentes na sociedade. Mesmo diante de metodologias sofisticadas e investigações detalhadas, sempre retornamos a uma questão central e atemporal: o verdadeiro problema reside no ser humano. Dessa forma, ao analisarmos os riscos e limitações das tecnologias, devemos lembrar que nenhuma solução tecnológica será suficiente sem mudanças estruturais no próprio tecido social que origina essas desigualdades. 4. OS CAMINHOS PARA UMA ÉTICA ALGORÍTMICA REFLEXIVA A ideia de um “humano no loop”, amplamente difundida como uma salvaguarda ética para a IA, parte de uma visão idealizada e universalizante do ser humano. No entanto, essa abordagem ignora que as decisões humanas estão sujeitas a preconceitos, agendas políticas e interesses econômicos. Umexemplo claro disso é a implementação de tecnologias de recrutamento baseadas em algoritmos: nas mãos de empresas que priorizam eficiência sobre inclusão ou são orientadas por vieses implícitos de seus desenvolvedores, essas tecnologias podem perpetuar práticas discriminatórias, mesmo sob controle humano direto. Nunes (2003, p. 558) argumenta que a “globalização” não deve ser vista como ummero “produto técnico” decorrente do avanço tecnológico, mas sim como um projeto político deliberado e sistematicamente conduzido pelas elites dominantes, moldado e sustentado
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