177 Cláudio Felipe Kolling da Rocha seção. O cérebro infantil é de longe o que exige maior cuidado quanto a exposição à tecnologia. Embora já tenha cessado a maior parte da formação de novos neurônios, os neurônios e células gliais ali presentes são bastante lábeis, respondendo de forma intensa ao uso e à experiência (Neville; Bavelier, 2002). A integração dessas células em circuitos neurais maduros e bem adaptados irá depender do tipo de uso e de experiência a que forem submetidas. Dessa forma, a exposição da criança a ambientes enriquecidos, desafiadores, tanto do ponto de vista cognitivo quanto social e motor, é essencial para aproveitar ao máximo esse período de alta plasticidade (Mualem et al., 2024). Somente com diversidade de cenários a criança poderá desenvolver um repertório cognitivo, socioemocional e motor que lhe garantam adaptabilidade a ummundo dinâmico. Com tal intenção, diferentes tecnologias podem ser empregadas, desde que se defina um objetivo claro e o desfecho esperado. O uso repetido e por longos períodos do mesmo recurso tecnológico precisa ser evitado, sob risco de sobrecarga sensorial de circuitos limitados em detrimento de um desenvolvimento mais amplo das capacidades do indivíduo (Manwell et al., 2022). Nesse sentido, o uso educativo e limitado de telas/tecnologias, em especial quando o uso é compartilhado entre criança e seu cuidador, com troca de impressões e aprendizados, pode ter resultado positivo no desenvolvimento da criança (Mallawaarachchi et al., 2024). Cabe aqui destacar que o uso de recursos de IA nessa fase do desenvolvimento cerebral precisa ser cuidadosamente avaliado, uma vez que pode remover o componente de interação criança-cuidador e as inúmeras formas de comunicação não verbal que a medeiam. Na perspectiva da plasticidade do cérebro adulto, embora seja um órgão menos plástico e com circuitos neurais já bem estabelecidos, a manutenção de tais circuitos depende fortemente do seu uso repetido. A plasticidade no cérebro adulto se dá principalmente sob a forma de rearranjo de circuitos neurais através da formação, reforço e deleção de conexões sinápticas. Em suma, os repertórios comportamentais, socioemocionais, cognitivos e motores do adulto são mantidos e expandidos pelo uso e exposição a novas experiências. Assim como no cérebro infantil, esse cérebro precisa ser exposto constantemente a um ambiente enriquecido e desafiador para manter e desenvolver seu potencial (Hertzog et al., 2008).
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