293 Mateus Panizzon e Patrícia Montemezzo gia — no centro das decisões que impactam diretamente a vida dos indivíduos (Castells, 2011). Ao mesmo tempo em que potencializa o acesso ao conhecimento, a sociedade em rede também inaugura novas assimetrias. Nem todos os sujeitos e grupos sociais participam igualmente dos circuitos de informação e inovação, o que dá origem ao fenômeno da exclusão digital e da chamada inclusão seletiva (Castells, 2011). Isso significa que apenas determinadas regiões, classes sociais ou perfis de usuários possuem acesso privilegiado aos recursos tecnológicos e às oportunidades que decorrem do uso estratégico da informação. Surge, neste contexto, o chamado apartheid digital, expressão cunhada quando do lançamento de uma ação governamental intitulada Programa Sociedade da Informação, em 1999, mencionada por Henrique F. R. Silveira (2001). Segundo o autor, o referido programa era necessário para que o Brasil adotasse políticas eficientes a minimizar as desigualdades entre pessoas e instituições, que eram resultado de disparidades no acesso e no entendimento da informação disponível. Ciente dessas anomalias, as novas tecnologias informacionais contribuiriam para minimizar o apartheid social, reduzindo as desigualdades pelo aumento de oportunidades, o que se tornaria possível com a intervenção estatal na Internet (Silveira, 2001). A esse cenário soma-se a crescente atuação de sistemas algorítmicos capazes de organizar, filtrar e priorizar informações em plataformas digitais. Esses sistemas, muitas vezes operados por inteligência artificial, não apenas processam dados, mas determinam o que será visível ou invisível aos usuários, com base em seus padrões de comportamento e interação. Essa mediação algorítmica, ao ser realizada de forma opaca, reposiciona as plataformas digitais como agentes reguladores do espaço público informacional, muitas vezes sem qualquer controle democrático ou normativo efetivo. Esse tipo de estrutura automatizada, ao mesmo tempo que oferece ganhos em eficiência e personalização, promove o deslocamento das decisões sociais relevantes para instâncias técnicas invisíveis. A governança das redes digitais passa a ser conduzida por operadores privados, que detêm o poder de programar os fluxos e de definir os critérios de relevância da informação. A própria noção de realidade torna-se moldada pelos filtros algorítmicos que modulam o que se consome, lê, compartilha ou ignora.
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