Inteligência artificial e algoritmos

Inteligência artificial, redes sociais e liberdade de consumo: desafios éticos e a urgência de regulação das plataformas digitais de redes sociais 294 Trata-se da problemática abordada por Byung-Chul Han (2021), que denomina infocracia e que consiste na degeneração da democracia, enquanto espaço de livre debate emanifestação voluntária. Verifica-se o decaimento da faculdade humana de julgar e o fortalecimento de uma verdadeira infodemia: epidemia da disseminação massiva de informações, sem compromisso com a verdade e com a reflexão. “A inteligência artificial não fundamenta, mas calcula. Em vez de argumentos, surgem algoritmos. Argumentos podem ser aprimorados no processo discursivo. Algoritmos, por sua vez, são otimizados continuamente no processo maquinal” (Han, 2021, p. 66). Nessa ambiência, o espaço virtual deixa de ser uma extensão neutra da realidade física para se constituir como instância que influencia diretamente a esfera política, econômica e subjetiva dos indivíduos. A cultura da virtualidade real, conceito que procura descrever essa fusão entre o digital e o cotidiano, evidencia que as decisões tomadas no ambiente informacional têm repercussões concretas sobre a vida social, desde as escolhas de consumo até a participação política (Castells, 2011). Embora as redes digitais possam representar oportunidades de democratização do saber e de colaboração em escala planetária, tais possibilidades não se realizam automaticamente. Conforme apontado por Lévy (1999), a inteligência coletiva distribuída exige, para seu pleno desenvolvimento, condições que assegurem a participação crítica e responsável dos indivíduos. Caso contrário, corre-se o risco de que a aparente liberdade da rede apenas disfarce a concentração do poder informacional em poucas corporações, as quais atuam não como mediadoras neutras, mas como agentes com interesses econômicos específicos. Por sua vez, a crítica à forma como esse poder informacional vem sendo exercido ganha ainda mais densidade quando se considera a crescente captura da atenção e do comportamento dos usuários pelas plataformas digitais. Ao lado da difusão técnica das redes, consolidou-se uma lógica de funcionamento baseada na vigilância contínua, na coleta massiva de dados e na personalização extrema do conteúdo — tudo isso ancorado em modelos de negócios orientados à maximização do engajamento e da receita publicitária. O modelo de estado de vigilância descrito na ficção de George Orwell como Big Brother parece ser cada vez mais real.

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