Inteligência artificial e algoritmos

Inteligência artificial, redes sociais e liberdade de consumo: desafios éticos e a urgência de regulação das plataformas digitais de redes sociais 296 o tempo de permanência, o engajamento e, sobretudo, a conversão comercial (lucrativa) de cada interação. A atuação dessas plataformas não se limita à oferta de conteúdo personalizado. Opera, de forma cada vez mais sofisticada, como um mecanismo de persuasão contínua, ajustado ao perfil psicológico e emocional do usuário. Por meio da integração entre inteligência artificial, big data e estratégias de neuromarketing, o ambiente digital é projetado para influenciar decisões de forma sutil, muitas vezes sem que o indivíduo tenha plena consciência dos estímulos a que está sendo submetido (Carlessi; Borges; Calgaro, 2022). Neste cenário, observa-se que o consumo não é apenas facilitado pelas tecnologias digitais — ele é induzido, reforçado e, em certa medida, condicionado por elas. Os sistemas algorítmicos são programados para testar continuamente o que produz maior resposta emocional ou engajamento, conduzindo os usuários por caminhos de decisão que favorecem objetivos comerciais previamente definidos. O comportamento do consumidor, portanto, deixa de ser uma expressão autônoma de vontade para se tornar um objeto de modelagem e exploração sistemática, em troca de prazer e dopamina barata. As redes sociais, inicialmente concebidas como ambientes de expressão e relacionamento, assumem um papel ativo na manipulação de desejos e comportamentos. Essa mudança de função se acentua à medida que tais plataformas passam a depender financeiramente da comercialização de dados e da segmentação precisa de públicos-alvo. A lógica da atenção, convertida em lógica de vigilância e monetização, altera profundamente o modo como os indivíduos consomem produtos, ideias e conhecimento no ambiente digital. O modelo de negócio adotado por essas plataformas sustenta-se sobre a captura do comportamento humano em escala massiva. Cada clique, deslizar de tela, tempo de leitura, curtida ou reação emocional é tratado como dado bruto, que será processado e convertido em perfil comportamental. A coleta não se limita a aspectos objetivos, mas abrange também informações subjetivas, como estados emocionais, padrões inconscientes de resposta e vulnerabilidades cognitivas. Essa prática caracteriza o chamado capitalismo de vigilân-

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