307 Mateus Panizzon e Patrícia Montemezzo do bem-estar coletivo (Dufour, 2003; Floridi, 2013). Assim, os algoritmos não são causas primeiras, mas expressões operacionais de uma racionalidade extrativa que, ao articular técnica, economia e política, ameaça a cidadania democrática. Reconhecer essa origem estrutural é condição para avançar emuma nova racionalidade algorítmica ética e multinível, capaz de recolocar a tecnologia a serviço da emancipação humana e da proteção dos direitos fundamentais (Castells, 2011; Ienca, 2021). É ao substituir a lógica extrativa da maximização da atenção por uma racionalidade algorítmica ética que será possível assegurar que a inteligência artificial opere não como instrumento de manipulação invisível, mas como fundamento de uma cidadania digital livre e democrática. Isso passa por não apenas regular algoritmos, mas redefinir os princípios que os orientam, para que deixem de reproduzir uma racionalidade extrativa e passem a constituir uma infraestrutura de dignidade, pluralidade e emancipação humana. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS A atuação das plataformas digitais baseadas em inteligência artificial tem provocado transformações significativas na sociedade contemporânea, especialmente no que se refere à organização do poder, à reconfiguração da subjetividade e à modulação do comportamento dos indivíduos. Como se buscou demonstrar ao longo deste artigo, o uso intensivo de algoritmos capazes de personalizar a experiência digital com base em dados comportamentais e emocionais compromete de forma crescente a autonomia dos sujeitos, afetando diretamente sua liberdade de consumo e sua capacidade de deliberação consciente. Ao operar sobre a atenção, os desejos e os impulsos inconscientes, os sistemas de recomendação e de publicidade comportamental se consolidam como tecnologias persuasivas que desafiam os parâmetros clássicos da racionalidade e do livre-arbítrio. O ambiente digital, longe de se constituir em espaço neutro de circulação de informações, revela-se como campo de controle algorítmico, no qual decisões são induzidas por lógicas invisíveis, orientadas à maximização do engajamento e do lucro.
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