Inteligência artificial e algoritmos

45 Ana Carolina Roman Rodrigues, Cássia Hosni e Renata Perim Lopes coletiva, e sua profanação é ummodo de tentar apagar as marcas de uma experiência democrática. Paradoxalmente, contudo, a destruição gera novos testemunhos, como as fissuras, os cacos, as cicatrizes do patrimônio, que se transformam em evidências históricas. Confrontar essas imagens hoje é reconhecer o valor pedagógico das ruínas. Nesse sentido, Andreas Huyssen (2000), propõe pensar as ruínas não apenas como vestígios de decadência, mas como suportes de memória ativa e dispositivos que resistem ao esquecimento e impõem a lembrança como tarefa política. Não se trata de estetizar a violência, mas de compreender que os rastros do 8 de janeiro devem ser preservados como advertência. Ao olharmos para os danos, vemos não apenas o que foi quebrado, mas também o que resistiu: a própria capacidade de transformar violência em memória crítica. O desafio então é duplo, restaurar os bens materiais atingidos e, ao mesmo tempo, inscrevê-los em uma narrativa que denuncie a violência contra a democracia. O patrimônio ferido não deve ser ocultado, mas assumido como espaço de memória ativa, uma lembrança incômoda que impede o esquecimento e afirma a necessidade de proteger a vida democrática. Em nosso projeto, esse pressuposto de memória ativa vai se potencializar nomomento emque os arquivos de imagens ganhamo espaço físico da exposição. Os efeitos não intencionais das câmeras, os formatos de compressão, os metadados e os algoritmos de visão computacional que categorizam as imagens no protótipo evidenciam as materialidades próprias dos arquivos nato-digitais. Quando esses arquivos são deslocados para o espaço expositivo, essa materialidade se expande e adquire nova agência. Como Breakell e Russell (2023) destacam, o gesto de expor transforma o arquivo em presença ativa, conferindo-lhe agência no campo social e cultural. 2. A EXPOSIÇÃO: ENTRE O DIGITAL E O ESPAÇO FÍSICO O estatuto das imagens nato-digitais produzidas pelas câmeras de vigilância foi, a princípio, o de registro. Sua disponibilização pública, permitindo que qualquer pessoa pudesse visualizar ou baixar o conteúdo, constituiu um gesto democrático que ampliou os territórios possíveis de debate. A partir da seleção e do tratamento digital dessas imagens na interface de acesso, elas foram impressas

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