Arquivo e memória do dia 8 de janeiro de 2023: do registro a documento 46 e ganharam desdobramento no espaço físico, tornando-se matéria para reflexão crítica. Esse movimento esteve no centro da mostra Arquivo e Memória do Dia 8 de Janeiro de 2023, realizada no âmbito do Festival Arquivo Aberto do Arquivo Histórico Municipal de São Paulo. O gesto curatorial consistiu em deslocar um acervo técnico para o espaço expositivo e, a partir dele, propor quatro eixos de interpretação capazes de articular dimensões jurídicas, políticas, estéticas e patrimoniais. A sala expositiva não se configurava como galeria convencional, mas como um ambiente de análise, em que o visitante se via diante de um acúmulo de fragmentos visuais e textuais a exigir deciframento. Em lugar da monumentalização ou do espetáculo, a montagembuscava a atmosfera de um laboratório forense, não a imagem icônica do acontecimento, mas longas sequências de fotografias em 10 cm x 15 cm, alinhadas e simulando a continuidade dos vídeos. Esse gesto, aparentemente simples, criava-se certa intensidade pela saturação, em que os fragmentos se entrelaçaram em um corpo documental marcado por cortes, interrupções e lacunas. Nesse arranjo, as imperfeições técnicas foram incorporadas como parte da narrativa. Glitches, pixelizações e distorções surgiam impressos junto a imagens estáveis, lembrando que cada registro carrega a marca de sua própria materialidade. O que poderia ser descartado como defeito aparecia como índice, revelando que a violência daquele dia atingiu também os sistemas de registro, que falharam, foram sabotados ou não conseguiram dar conta da totalidade do evento. Essa chave de leitura deslocava o foco do conteúdo imediato para a dimensão operacional das imagens, em diálogo com as reflexões de Harun Farocki e Trevor Paglen sobre registros feitos não para serem vistos, mas para funcionar. O diálogo com a produção imagética de Farocki está em entender que toda a criação de imagem por “máquinas de ver” (como o são as câmeras de vigilância) é política e determina situações de controle e poder (Mourão; Borges; Mourão, 2010). Já com Paglen (2019), entendemos que oferecer novas formas de visualizar a superprodução de imagens, é determinante para dar visibilidade a mecanismos aparentemente ocultos. Nesse sentido, propomos que as imagens no espaço expositivo, fossem reinscritas em um circuito de leitura crítica.
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