Empresa, sociedade e tecnologia: sob a ótica sistêmica e econômica

Desvendando contratos: a utilização da Inteligência Artificial na mitigação de riscos jurídicos em contratos de prestação de serviços 122 A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL APLICADA À ANÁLISE JURÍDICA A IA generativa, fundamentada em Large Language Models (LLMs), representa um salto qualitativo na capacidade computacional de compreender e manipular a linguagem. Esses modelos, que são a manifestação prática da “sociedade em rede” de Manuel Castells (2002), onde a informação gera mais informação em um ciclo de retroalimentação, aprendem a partir de vastos volumes de texto, permitindo-lhes entender o contexto, a semântica e as estruturas da linguagem jurídica. O motor por trás dessa capacidade é o aprendizado de máquina (machine learning), um subcampo da IA que se tornou tão central que hoje é quase sinônimo da própria capacidade de aprendizado dos sistemas (Domingos, 2017). A proficiência alcançada é tal que modelos como o GPT-4 já demonstram desempenho superior ao de muitos humanos em exames complexos como o da ordem dos advogados dos EUA (Katz et al., 2023). As oportunidades que essa tecnologia descortina para o campo do Direito são imensas. A automação da revisão de contratos para identificar cláusulas de risco, a aceleração da pesquisa jurisprudencial e a elaboração de minutas de documentos são apenas algumas das aplicações mais evidentes. No entanto, a eficácia dessas aplicações não reside apenas na potência domodelo de IA, mas fundamentalmente na qualidade da interação do usuário com a ferramenta. A habilidade de formular comandos claros, contextualizados e precisos — conhecida como engenharia de prompt — emerge como uma competência crucial para o profissional do Direito na era digital. Um prompt genérico tende a gerar respostas superficiais, enquanto um prompt bem estruturado pode guiar a IA a realizar uma análise profunda e focada. A utilização da IA na advocacia, no entanto, não é isenta de desafios e traz consigo riscos significativos que exigem uma abordagem cautelosa. Omais notório deles é o fenômeno das “alucinações”, no qual a IA gera informações que são factualmente incorretas ou simplesmente inexistentes, mas as apresenta com uma linguagem assertiva e convincente. O caso do advogado norte-americano que utilizou em juízo precedentes falsos, criados pelo ChatGPT, tornou- -se um alerta global sobre os perigos da confiança cega na tecnologia (Bohannon, 2023). Esse risco evidencia que a IA não “sabe” ou “en-

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