Rafael Corrêa de Barros Berthold 129 em cenários de incerteza. Essa cultura profissional, frequentemente descrita como reativa e resistente à mudança, é reforçada por uma formação epistemológica que tradicionalmente privilegia a hermenêutica e a argumentação em detrimento da análise quantitativa, não preparando o profissional do direito para uma gestão baseada em métricas e indicadores. Tal cenário consolida a dependência de métodos consagrados em detrimento de novas abordagens de gestão. Contudo, este paradigma vem sendo sistematicamente desafiado pela Economia Comportamental. A partir dos trabalhos seminais de Simon (1953), Kahneman e Tversky (1979), demonstrou-se que o processo decisório humano, mesmo o de especialistas, desvia-se de forma previsível dos pressupostos de racionalidade. Vieses cognitivos como a aversão à perda, o excesso de otimismo e os efeitos de enquadramento são características intrínsecas da cognição que transformam a intuição em um canal para erros de julgamento. Essa constatação ganha relevância no cenário atual, onde a aplicação de Business Analytics e Legal Tech pressiona os departamentos jurídicos a adotarem decisões mais estratégicas e baseadas em evidências, como aponta Mania (2022). A crítica mais contundente a essa confiança na expertise intuitiva vem de Daniel Kahneman, cuja tese defende que mesmo algoritmos simples superam consistentemente o julgamento de especialistas, por aplicarem critérios de forma consistente e livre de vieses. Diante disso, emerge uma questão fundamental: se a intuição é comprovadamente falível, qual “algoritmo” oumecanismo estruturado pode aprimorar a racionalidade da gestão jurídica? Este trabalho propõe que a resposta reside em ferramentas de gestão consolidadas, como o Balanced Scorecard (BSC), desenvolvido por Kaplan e Norton (1992). Ao traduzir a estratégia em um conjunto de objetivos e indicadores-chave de desempenho (KPIs), o BSC força uma análise objetiva e multifacetada que atua como um contrapeso direto à subjetividade. Este artigo, portanto, investiga como a gestão jurídica baseada na intuição se torna vulnerável a vieses cognitivos, partindo da hipótese de que tal modelo resulta em decisões menos eficientes. O objetivo é demonstrar a inadequação domodelo puramente intuitivo e propor o uso do BSC como uma ferramenta de governança parami-
RkJQdWJsaXNoZXIy MjEzNzYz