Maria Eugênia Pereira Saraiva Silveira 159 INTRODUÇÃO As empresas familiares representam a forma predominante de organização empresarial em diversos setores da economia mundial e, no Brasil, assumem papel ainda mais relevante no agronegócio, setor estratégico para a produção de alimentos e para o desenvolvimento econômico nacional (Tamarindo; Pigatto, 2020, p. 24). No contexto agropecuário, a ligação entre família, patrimônio e atividade produtiva é ainda mais intensa, pois não se trata apenas de uma unidade de produção, mas também de um espaço de vida, tradição e identidade social. Essa característica, ao mesmo tempo em que fortalece o vínculo dos membros da família com o negócio, torna a sua continuidade um desafio, especialmente quando ocorre a necessidade de sucessão entre gerações. Nesse cenário, a governança familiar surge como um mecanismo fundamental para organizar relações, delimitar responsabilidades e criar condições para a preservação da empresa ao longo do tempo. A relevância do tema se evidencia quando se analisam as estatísticas de mortalidade das empresas familiares. Grande parte dessas organizações não sobrevive após a terceira geração, o que é atribuído, em grande medida, à ausência de mecanismos formais de governança capazes de lidar com conflitos internos e de preparar sucessores para a gestão. No caso específico das empresas agropecuárias, o problema se agrava em virtude da forte concentração das funções de propriedade, gestão e família no fundador, geralmente patriarca oumatriarca. Essa sobreposição de papéis provoca dificuldades na transição do poder, já que os herdeiros muitas vezes não se encontram preparados para assumir responsabilidades de administração, tampouco há regras claras que orientem a distribuição de direitos e deveres. Assim, discutir a governança no contexto sucessório das empresas familiares agropecuárias torna-se não apenas uma necessidade acadêmica, mas também uma contribuição prática para a sustentabilidade do setor (Cavalcanti, 2020, p. 25). O problema de pesquisa que norteia este trabalho é: como a governança familiar pode contribuir para a continuidade das empresas agropecuárias no contexto do planejamento sucessório? Parte-se da hipótese de que a governança, quando bem estruturada por meio de instâncias formais como protocolos familiares, conselhos de administração e fóruns de decisão, é capaz de reduzir tensões
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