Empresa, sociedade e tecnologia: sob a ótica sistêmica e econômica

Maria Eugênia Pereira Saraiva Silveira 161 GOVERNANÇA NAS EMPRESAS FAMILIARES AGROPECUÁRIAS As empresas familiares agropecuárias constituem a base de grande parte do agronegócio brasileiro e representam não apenas unidades de produção econômica, mas também espaços de convivência, tradição e transmissão cultural. Em sua essência, essas organizações reúnem de forma simultânea três dimensões que, embora distintas, se sobrepõem continuamente: a família, a propriedade e a gestão. Essa sobreposição é característica das empresas familiares e confere a elas singularidades que podem se traduzir tanto em força quanto em fragilidade. No início, quando o negócio é conduzido pelo patriarca ou matriarca, a centralização de decisões tende a conferir unidade e rapidez nas escolhas, além de imprimir os valores pessoais do fundador no modo de condução das atividades. Contudo, à medida que as gerações se sucedem, essa estrutura centralizada torna-se insustentável, dando origem a desafios complexos, sobretudo em razão da ampliação dos núcleos familiares, da diversidade de interesses e da necessidade de adaptação a novos contextos econômicos e sociais (Cavalcanti, 2020). A relevância do tema se torna evidente quando se observa a elevada taxa de mortalidade das empresas familiares ao longo das gerações. Diversos estudos indicam que apenas uma pequena parcela dessas organizações sobrevive além da terceira geração, e as empresas agropecuárias não fogem a essa realidade. A fragilidade na continuidade não decorre, em regra, de limitações técnicas ou econômicas da atividade, mas sim de conflitos internos, ausência de mecanismos de governança e indefinição de papéis entre os membros da família. Essa constatação evidencia que a dimensão relacional da empresa é tão oumais importante que os aspectos financeiros ou produtivos, e que a sua sustentabilidade depende de como as famílias empresárias conseguem articular vínculos afetivos, interesses econômicos e responsabilidade administrativa. A governança familiar, nesse contexto, desponta como elemento fundamental para estruturar essas relações e criar condições que viabilizem a continuidade. Em linhas gerais, governança pode ser compreendida como um sistema de regras, processos e valores que orientam a forma como as organizações são conduzidas e monitoradas. No caso das empresas familiares, ela adquire

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