Governança como estratégia de continuidade da empresas familiares agropecuárias 162 contornos específicos, uma vez que precisa conciliar interesses que extrapolam o âmbito empresarial, incluindo também expectativas emocionais e culturais ligadas ao pertencimento familiar. Assim, governança familiar significa organizar a interação entre família, propriedade e gestão de forma clara, estabelecendo critérios para a tomada de decisão, mecanismos de comunicação, instâncias de deliberação e procedimentos que assegurem transparência, confiança e equilíbrio de poder (Oliveira; Albuquerque; Pereira, 2012, p. 181). No âmbito das empresas agropecuárias, a importância da governança é ainda maior. Em grande parte dos casos, a atividade rural é exercida de forma informal, concentrada na figura do proprietário que acumula funções de gestor e líder familiar (Cardoso, 2023, p. 3). Essa concentração, embora eficiente na fase inicial, tende a gerar dificuldades quando ocorre a sucessão, pois os herdeiros muitas vezes não estão preparados para assumir responsabilidades administrativas e tampouco existem normas que orientem a divisão de papéis. Em consequência, surgem conflitos relacionados à gestão da propriedade, ao uso dos recursos e à continuidade das atividades produtivas. É nesse cenário que a governança se apresenta como instrumento capaz de prevenir disputas, estabelecer limites e promover a harmonia entre os envolvidos. Outro aspecto que demonstra a relevância da governança é o seu papel no processo sucessório. A sucessão não pode ser entendida apenas como transmissão de patrimônio, mas também como transferência de liderança e continuidade da gestão. A simples partilha de bens, sem uma estrutura clara de governança, tende a fragmentar o patrimônio e enfraquecer a empresa. Por outro lado, quando há protocolos familiares, conselhos e fóruns de decisão que regulamentam o ingresso dos herdeiros, definem responsabilidades e estabelecem regras de convivência, as chances de continuidade se ampliam. A governança, portanto, não elimina os conflitos, mas oferece mecanismos para que eles sejam tratados de forma transparente e equilibrada, evitando rupturas e garantindo a estabilidade do negócio (Pelizaro; Caleman; Silva, 2023, p. 698). Do ponto de vista teórico, um dos modelos mais utilizados para compreender a dinâmica das empresas familiares é o Modelo dos Três Círculos, desenvolvido por Tagiuri e Davis, que distingue
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