Empresa, sociedade e tecnologia: sob a ótica sistêmica e econômica

Maria Eugênia Pereira Saraiva Silveira 163 e interliga três dimensões centrais: a família, a propriedade e a empresa (Davis, 2018). Esse modelo evidencia que cada dimensão possui interesses próprios e que os conflitos surgem, em grande parte, quando os papéis se sobrepõem ou não estão devidamente delimitados. Por exemplo, um herdeiro pode ser simultaneamente membro da família, proprietário e gestor, acumulando funções que, se não forem claramente definidas, geram tensões e desentendimentos. A governança atua, justamente, no sentido de estruturar essas esferas, criar fronteiras claras e promover a cooperação entre os envolvidos, de modo que o equilíbrio entre os três círculos favoreça a sustentabilidade da organização. Na prática, a aplicação da governança familiar se concretiza por meio de instâncias formais e informais. Entre as mais comuns estão o Conselho de Família, voltado para discutir valores, expectativas e estratégias de sucessão; e o Conselho de Administração, responsável por supervisionar a gestão estratégica da empresa, podendo incluir membros externos com conhecimento técnico. Esses conselhos permitem que a família estabeleça canais permanentes de diálogo, crie regras de ingresso e permanência na gestão e assegure que as decisões sejam tomadas de forma colegiada, reduzindo o peso das relações pessoais sobre o futuro da empresa. Além disso, práticas como a elaboração de protocolos familiares formalizam princípios e acordos, conferindo maior previsibilidade e segurança ao processo sucessório (Davis, 2019). Em síntese, a governança nas empresas familiares agropecuárias se apresenta como condição indispensável para enfrentar os desafios da sucessão e da continuidade. Ao organizar as relações entre família, propriedade e gestão, a governança cria um ambiente de confiança e transparência, promove a profissionalização da administração e reduz a fragmentação patrimonial. Mais do que um conjunto de regras, trata-se de uma prática cultural que deve ser incorporada ao cotidiano das famílias empresárias, respeitando suas particularidades e valores. Nesse sentido, compreender a governança como parte essencial da vida empresarial é um passo decisivo para assegurar a perenidade das organizações agropecuárias e para consolidar o papel das empresas familiares como protagonistas do desenvolvimento econômico e social no meio rural brasileiro.

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