101 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Um dia, ao mexer na castanha de caju da grande árvore que havia no quintal de casa, aquela castanha que fica grudada na fruta, um caroço cinza-escuro bem na ponta do caju, acabei furando e saiu um óleo que pingou bem na minha mão, deixando um vermelhão. E eu, na esperteza típica de uma criança de seis anos, enxerguei ali uma oportunidade: fazer rosadas as minhas bochechas marrons. Passei o óleo nas bochechas e pensei: – “Agora sim! Também vou ter bochechas rosadas!” No dia seguinte, não só ficaram vermelhas, como a queimadura era tão visível e dolorida que eu nem consegui ir para a escola. E assim foi por alguns dias. Mas o que esse episódio tem a ver com as infâncias? Tudo. A maioria tinha as bochechas rosadas no inverno. Mas então, uma segunda questão me atravessou: onde estavam as várias bochechas marrons que ali faltavam? Uma escola particular que reunia poucas bochechas marrons. Essa é uma história simples da minha infância que revela, desde muito cedo, a existência de lugares aos quais nem todas as bochechas marrons têm acesso. Hoje percebo que ainda é assim, os espaços seguem marcados por ausências que dizem muito sobre representatividade, pertencimento, desigualdade e cor. Esse episódio da infância me revelou algo que só mais tarde pude nomear: as infâncias não são todas iguais. O que nos atravessa enquanto criança, desde a cor da pele, o bairro em que vivemos e até o tipo de escola que frequentamos, não são meros detalhes, mas elementos centrais na experiência infantil. É sobre isso que quero falar: as infâncias plurais no Brasil de hoje. Uma pluralidade marcada por desigualdades históricas, racismo estrutural, acessos desiguais a direitos, e diferentes possibilidades de (re)existir e sonhar. É nesse contexto que se insere a discussão sobre como essas infâncias se constituem e são atravessadas por marcadores de raça, território e classe, tornando-as plurais num conceito sociológico e político. Infâncias plurais como conceito sociológico e político Ao abordar o conceito de infância, torna-se imprescindível o uso do termo no plural – infâncias –, uma vez que não se trata de uma vivência homogênea e universal. A infância, enquanto categoria social, histórica e cultural, é atravessada por marcadores que produzem expe-
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