Infâncias na contemporaneidade

102 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade riências radicalmente distintas (Sarmento; Pinto, 1997). É fundamental reconhecer que não há um único modelo de infância, mas múltiplas formas de vivê-la, condicionadas por fatores como raça, classe, gênero e território, marcadores sociais (Rosemberg, 2004), bem como por estruturas como o racismo, a desigualdade de renda e o patriarcado, como exemplos de marcadores estruturais (Rosemberg, 2004). De que infâncias estamos falando? Ao pensarmos a infância negra, há uma exigência de reconhecimento das diferenças e dos desafios específicos enfrentados por essas crianças. Falar sobre infâncias no Brasil da atualidade implica, portanto, em considerar as desigualdades que as constituem desde o início da vida. Existem diferentes crianças e diferentes infâncias (Votto Silva; Sá Júnior, 2024). A experiência de uma criança branca, pertencente a uma família de classe média ou alta, que nasce em hospitais particulares de referência e retorna a um lar com infraestrutura e segurança, difere substancialmente da realidade vivenciada por uma criança negra, periférica, cujos cuidadores enfrentam longos trajetos para acessar serviços de saúde precarizados, lidam com a ausência de políticas públicas efetivas e com a constante violação de direitos (Rosemberg; Mariani, 2010). A discussão aqui não é que recurso há disponível para a criança negra periférica, mas qual é o acesso que esta tem aos recursos disponíveis? Pois, ainda que a unidade de saúde do bairro possua os recursos necessários, muitas vezes essa família sequer consegue acessá-la, seja por barreiras geográficas, econômicas ou institucionais. Reconhecer as infâncias como plurais é, assim, um exercício ético e político de enfrentamento das desigualdades estruturais que marcam as infâncias no Brasil. Trata-se de superar a concepção idealizada e abstrata de infância, muitas vezes centrada em padrões eurocêntricos e de classe média/alta, e compreender as múltiplas formas de existir e resistir que compõem o cotidiano de crianças inseridas em contextos de vulnerabilidade social (Kramer, 2005; Rizzini, 2008). Quando compreendemos as infâncias como um conceito que é construído socialmente e atravessado por marcadores como raça, território e classe, concebemos não só sua pluralidade, mas também as formas brutais de negação de direitos que atingem determinadas infâncias. Dito isto, podemos avançar, vislumbrando os vários contextos que envolvem as infâncias, e um desses advém de uma estrutura antiga, porém não desconhecida: a estrutura da lógica colonial que ainda hoje

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