Infâncias na contemporaneidade

103 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade opera silenciosamente, negando humanidade ou desumanizando a infância e dignidade a tantas crianças pretas neste país. A desumanização das nossas crianças Não é difícil compreender o termo desumanização – o próprio nome já indica do que se trata: des-humanizar, ou seja, tornar não humano. O difícil é conceber onde a des-humanização está sendo aplicada. A estratégia de apagamento presente na desumanização é tão antiga quanto o tempo colonial, em que, para que as demais pessoas aceitassem as barbáries cometidas contra os pretos escravizados, dizia-se que eles não eram humanos – e nem poderiam ser considerados como tal. Dessa forma, aos não humanos era imposto um sofrimento horrendo – perfeitamente justificado pelos brancos donos, como se bicho não sentisse dor. Não, não é difícil compreender o termo proposto; difícil mesmo é vivê-lo na pele, todos os dias. Evaristo (2011) nos propõe uma compreensão lúdica sobre a desumanização das crianças de cor no conto Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos. Vale rever aqui uma das cenas centrais da história: “Zaíta espalhou as figurinhas no chão. Olhou demoradamente para cada uma delas... [...] Daí a um minuto, tudo acabou. Homens armados sumiram pelos becos silenciosos, cegos e mudos. Cinco ou seis corpos, como o de Zaíta, jaziam no chão” (Evaristo, 2021 apud Sant Anna, 2024, p. 71-76). Curta e robusta, assustadora e realista demais, é assim que se dá a história, do início ao fim, literalmente. Eu, sinceramente, li e reli o conto na esperança de ter perdido algo pelo caminho e, no final, vislumbrar um desfecho melhor para Zaíta. Grande engano! O retrato brutal, em cuja base está o racismo, é representado por Zaíta, que o tempo todo “simboliza a luta por pertencimento em um ambiente que constantemente nega a humanidade dessas crianças” (Evaristo, 2021apud Sant Anna, 2024, p. 27). “A inocência de Zaíta, à procura de sua tão desejada figurinha-flor, nos conduz a compreender o quão grave e desumana é a falta de estrutura, pobreza e violência oferecidas às crianças pretas, a quem é reservada a periferia” (Evaristo, 2021, apud Sant Anna, 2024, p. 27).

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