104 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade A (des)humanização rouba da criança preta parte da infância, atribuindo-lhe, desde cedo, o fardo de lidar com uma estrutura profundamente racista. Quantas Zaítas estão espalhadas por aí? Quantas infâncias roubadas? Como podemos dizer que a infância dessas Zaítas desumanizadas se compara à das princesinhas do papai, carregadas em um bebê conforto, após serem tiradas de seus berços de ouro? Se você chegou até aqui lendo este artigo, deve estar, neste exato momento, se perguntando: que infância tive? A do berço de ouro ou a infância roubada pela desumanização? Compreenda! Se, adulto hoje, tu vieste do berço de ouro, tua capacidade, dons, talentos – e até tua criatividade – podem, sim, estar marcados por diversos preconceitos e ranhuras de sofrimentos variados. Mas jamais, jamais, estará acoplado a essa lista o peso de ter sido atravessado, ainda criança, pela brutalidade de uma estrutura que insiste em negar a tua humanidade antes mesmo de te permitir sonhar, a não ser que tua pele tenha a cor preta. Para Magalhães (2024), o abismo entre as infâncias não é algo recente, é uma herança do racismo que se originou no período da escravidão e chegou até nós. Por isso, ele diz que [...] é essencial apreender que abordar a infância brasileira é considerar duas infâncias, a branca, que é protegida, acolhida e elitizada, enquanto a negra é marginalizada e considerada como um perigo à sociedade, uma mentalidade que se gesta desde a era colonial (Magalhães, 2024, p. 21). No Brasil, a criança negra aprende a (re)existir e ser antes mesmo de aprender a brincar – porque a urgência de sobreviver vem antes da liberdade de imaginar, de criar e talvez nem haja espaço para ela. E esse modo de (re) existir luta contra apagamento social já instituído em uma política de morte. Apagamento social das infâncias na necropolítica Mbembe (1957) cunha o termo Necropolítica, fazendo referência às políticas de morte – do “fazer morrer ou deixar viver” – perpetradas pelo Estado na ânsia de implementar o monopólio soberano do poder sobre os corpos, por meio do uso legítimo da força. Nesse mesmo sentido, o filósofo Renato Noguera propõe o conceito de Necroinfância, uma variação cujo objeto é a infância de crianças negras. O autor
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