105 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade [...] adota o conceito de Necroinfância como um dispositivo da necropolítica que tem como objetivo o controle e naturalização do sofrimento de crianças negras, bem como transformando os corpos infantis manipuláveis e matáveis (Noguera, 2020, p. 39). A sociedade passa a tratar como “normal” o sofrimento de crianças etnicamente consideradas inferiores e por isso, as crianças negras se tornam desnecessárias. E não é preciso ir longe para comprovar essa afirmação: dados recentes evidenciam como essas estruturas de morte se manifestam de forma brutal no Brasil. Em 2023, a taxa de mortalidade entre crianças e adolescentes negros do sexo masculino foi 4,4 vezes maior do que a de crianças e adolescentes brancos do mesmo sexo. Isso revela o impacto da interseccionalidade entre raça, gênero e classe na produção de vulnerabilidades sociais (Agência Senado, 2024). De acordo com dados das Secretarias Estaduais de Segurança Pública, reunidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2021 e 2023, mais de 80% das vítimas de mortes violentas intencionais na faixa etária de 15 a 19 anos eram negras. Já na primeira infância (0 a 4 anos), os dados também são alarmantes: 64,3% das vítimas eram negras, enquanto 32,9% eram brancas (Brasil, 2024). Isso evidencia que, no Brasil, a cor da pele continua sendo um marcador de risco desde os primeiros anos de vida. Essas estatísticas alarmantes – apontam para uma realidade que está bem debaixo do nosso nariz, mas que muitos só veem quando decidem, finalmente, parar de olhar para o lado errado da história. Se somos uma minoria preta, por que nossas crianças ocupam um ranking de maioria no quesito morte violenta, desaparecimento e tantos outros eventos que lhes ceifam a vida – e a infância? Dados da Fundação para a Infância e Adolescência mostram que, somente no estado do Rio de Janeiro, 73,18% das crianças desaparecidas são negras (pretas e pardas). Em paralelo, um estudo revela que, nas 17 cidades brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes, 86% das crianças em situação de rua são negras (Noguera, 2021). A Figura 3 abaixo foi publicada em uma matéria jornalística do Senado Federal, com dados das Secretarias Estaduais de Segurança Pública e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Brasil, 2024).
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