Infâncias na contemporaneidade

107 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade racial se acentua ao longo do tempo. Essa progressão revela como a violência estrutural e institucional acompanha e se intensifica durante o crescimento das crianças negras. Crianças brancas também estão representadas nas estatísticas de mortes violentas, o que demonstra que a proteção à vida não é garantida de forma equitativa. A brutalidade que atinge as infâncias negras não é abstrata: ela se revela em práticas cotidianas, olhares atravessados por estigmas separatistas e decisões políticas que determinam quem vive e quem morre. Isso não é uma série em uma plataforma de streaming ou um novo filme no cinema, está para além da dimensão simbólica e discursiva. Essa realidade se materializa em números estarrecedores que escancaram o impacto da necropolítica no cotidiano dessas crianças através de números de pobreza, desaparecimento e morte. Dados e indicadores sociais (mortalidade, pobreza, desaparecimento) A pobreza gera a desigualdade ou a desigualdade gera a pobreza? Essa pergunta nos leva a refletir sobre tudo que foi falado até aqui e algo que já está escancarado há muito tempo. Embora essa relação entre pobreza e desigualdade seja complexa e bidirecional, é frequentemente a falta de oportunidade, ou a negação dela, gerada pela desigualdade que perpetua a pobreza. E onde há pobreza e desigualdade, há também violência e tantas outras formas de violação. O que é pobreza? Pitombeira et al. (2019, p. 201), ao se apoiarem em Sen (2000), afirmam que “a pobreza deve ser compreendida, sob uma perspectiva crítica, como um estado de privação multidimensional de liberdades, que se manifesta em diversos domínios da vida, como saúde, educação, trabalho, lazer e cultura”. Ou, de forma mais popular, pode ser entendida como a escassez de insumos que sustentam a vida – como saúde, educação, trabalho, lazer, cultura, entre outros. A infância negra no Brasil é atravessada por essas marcas (desigualdade, pobreza, falta de oportunidade, violação de direitos, escassez etc.) desde muito cedo, e os dados revelam o quanto raça, cor e território ainda determinam as possibilidades de viver, crescer e morrer. A pobreza infantil no Brasil tem cor, e a violência letal e o desaparecimento também. Essa cor, historicamente, é a negra. Isso evidencia que a estrutura social e econômica brasileira ainda reproduz a lógica do racismo

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