113 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Ser preto é ser resistência, mas também é ser vida em abundância – desde a concepção, ainda no ventre materno. É carregar memórias e construir futuros. E, mesmo em meio às dores herdadas, ousar continuar. Conclusão As infâncias plurais, como conceito sociológico e político, reconhecem que não há um modelo único de infância, mas múltiplas formas de vivê-la. Isso se expressa, sobretudo, na valorização da infância negra, atribuindo-lhe o direito de ser e (re)existir – a quem nasceu com a cor marrom na pele – sem naturalizar o sofrimento, nem transformar corpos infantis em sujeitos manipuláveis e matáveis. No entanto, esse reconhecimento, por si só, não garante a efetivação dos direitos dessas infâncias. Apesar das legislações e dos programas voltados à infância, as lacunas na implementação e a ausência de um olhar interseccional revelam que ainda estamos distantes de assegurar uma infância digna para todas as crianças. Diante disso, é preciso não apenas denunciar, mas propor caminhos – e é nesse sentido que se apresenta esta conclusão: como um convite à ação, à escuta e à reconstrução de um país onde cada infância possa, de fato, crescer. É preciso reconhecer que há dor onde há ausência, e que há potência na luz que resiste mesmo na escuridão. Finalizo este artigo com uma canção, carregada no peito como esperança de dias melhores para nossas crianças negras: “Não existiria som Se não houvesse o silêncio Não haveria luz Se não fosse a escuridão...” Lulu Santos, Certas Coisas (Santos, 1983) Assim como na canção de Lulu Santos, há muitos contrastes que atravessam as infâncias no Brasil de hoje. As infâncias brasileiras – especialmente as infâncias negras – seguem resistindo entre silêncios e apagamentos, entre ausências e presenças marcadas pela luta. Ao terminar, volto à imagem das bochechas marrons – como quem retorna no tempo, agora com a compreensão de que elas não precisam ser rosadas,
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