119 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade cadas pela violência, pela discriminação e pelos olhares que me recusavam, era no mundo mágico criado por Cris Morena, autora das obras Floribella (2005), Chiquititas (1997-2001) e por tantas outras figuras da televisão e da música, que eu pousava meu coração. Ali, eu aprendia que sonhar não era proibido, que imaginar futuros possíveis era um gesto de resistência, e que profundamente desejar, poderia ser o primeiro passo para transformar a vida. Aprendi que há memórias que não pertencem apenas ao passado. Elas insistem em morar no presente, pulsando, ora como feridas abertas, ora como forças que empurram para frente. É desse lugar, entre a dor e a potência, que nasce este artigo. Uma travessia que entrelaça minha própria história com a teoria, que costura a infância marcada por violências e encantamentos com o educador e pesquisador que hoje ousa escrever. Este artigo nasce desse lugar de travessia entre dor e potência, como um relato de experiência entrelaçado a partir de excertos de um Trabalho de Conclusão de Curso em Pedagogia2. De tal modo, este artigo tem como objetivo apresentar, por meio do relato da minha própria infância, um exercício teórico de rememoração e análise, no qual busco compreender as estratégias de sobrevivência queer (Cornejo, 2015) que fui construindo para permanecer na escola. Essas estratégias, involuntárias e intuitivas, foram se desenhando a partir do apoio das professoras, de algumas colegas e, mais tarde, do movimento estudantil. Aqui, revisito os capítulos introdutórios do meu TCC com um olhar mais íntimo e poético, focando na vivência de uma criança queer, negra, periférica3, que encontrou na televisão, nas músicas, nas personagens e no universo lúdico um refúgio diante das violências cotidianas vividas no espaço escolar. A justificativa para este artigo nasce da urgência de dar visibilidade às infâncias dissidentes, que muitas vezes são silenciadas, apagadas ou empurradas para a margem. Nasce de um lugar que não é qualquer lugar. É o “lugar dos excluídos” (Carneiro, 2023, p. 9), aquele 2 O trabalho de conclusão de curso intitulado Bixinha. Eu nem sabia o que era isso até entender que eles estavam tentando me ofender : narrativas de pessoas LGBT sobre a escola, foi concluído e defendido por mim em julho de 2020. 3 Encontro em bell hooks uma importante fonte de inspiração e justificativa teórica para fundamentar minha forma de escrever e realizar pesquisa. Ao teorizar em primeira pessoa, a partir das minhas próprias experiências, sigo a proposta da autora de valorizar a subjetividade e a voz individual como parte essencial do processo acadêmico e intelectual.
RkJQdWJsaXNoZXIy MjEzNzYz