Infâncias na contemporaneidade

120 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade onde as vozes tantas vezes foram silenciadas, as histórias apagadas e os saberes deslegitimados. É desse chão, fecundado de dores, resistências e esperanças, que brota a escrita que aqui se apresenta. Como lembra bell hooks (2017, p. 102), “não é fácil dar nome à nossa dor, teorizar a partir desse lugar”. E, de fato, não é. Porque escrever desde esse território onde se vive o peso da exclusão e da desautorização é também enfrentar a constante invalidação que recai sobre os saberes que emergem das experiências de pessoas negras, periféricas e dissidentes. A autora denuncia que essa rejeição é uma ferida aberta no fazer acadêmico da pesquisa de pessoas negras. Uma recusa que se manifesta no rebaixamento da teoria quando ela é tecida a partir das vivências negras (books, 2017, p. 92). É um desespero compartilhado por quem, ao ousar narrar-se, encontra muros onde deveriam existir pontes. A metodologia adotada neste artigo é o relato de experiência, compreendido como uma forma legítima e potente de produção de conhecimento. Trata-se de uma modalidade que permite a articulação entre o vivido e o pensado, entre a prática e a teoria, favorecendo o exercício da reflexão crítica sobre experiências formativas em seus múltiplos contextos. Este estudo é, especificamente, do tipo descritivo e reflexivo, construído a partir das marcas deixadas por experiências escolares de uma infância queer, articuladas com o embasamento teórico dos estudos de gênero e sexualidade. Compreendo que revisitar a própria história não é um ato narcisista, mas sim um gesto político de resistência, de reconstrução e de produção de conhecimento a partir de lugares historicamente desautorizados. Assim, este artigo se sustenta, antes de tudo, no amor. Amor às infâncias dissidentes, às infâncias que dançam fora das linhas, que desafiam os contornos do que se convencionou chamar de normal, e que, por isso, tantas vezes foram empurradas para as bordas, para as sombras, para o esquecimento. Aqui, cada palavra se faz costura de memórias e de futuros. Carrega o peso da dor, sim a dor de quem carrega no corpo e na alma as marcas da exclusão, mas também se oferece com a leveza da esperança. Transformar vivências em escrita é, mais do que tudo, um ato de rasgar o véu da invisibilidade, de acender luzes onde antes havia breu, e de semear futuros em que caibam todas as infâncias, todos os corpos, todas as existências. Que essa escrita, portanto, seja semente. Semente que rompe o asfalto da norma, que desafia os silêncios impos-

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