122 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade criança preta queer, atravessada pela dor, mas também pela potência, que dialogam diretamente com minha formação acadêmica e com os referenciais teóricos dos estudos de gênero, sexualidade e educação que sustentam essa pesquisa. Como afirmam Mussi et al. (2021, p. 65), esse tipo de escrita “trata de uma vivência em um dos pilares da formação. Na construção do estudo é relevante conter embasamento científico e reflexão crítica”. Minha narrativa não se limita a um simples testemunho pessoal, mas ganha densidade ao ser analisada a partir de referenciais teóricos que possibilitam o entendimento mais amplo das experiências vividas e de seus efeitos. A escrita das experiências, como destaca Martins (1998), não é uma simples linha cronológica de fatos; ela se apresenta como um campo fértil onde se entrelaçam saberes, afetos, sentidos e experiências compartilhadas. Ao narrar minha própria trajetória, transformo minha memória em conhecimento teórico-social, tecido nas intersecções entre o pessoal e o coletivo, entre o singular e o histórico, entre subjetividade e os contextos culturais e institucionais. Ao ecoar esse entendimento, busco apoio teórico em hooks (2019), que diz sobre narrar experiências que emergem dos corpos negros, periféricos, queer, não é apenas um exercício de memória, mas um ato político de afirmação epistêmica. Diante disso, ancorado em um compromisso ético, estético e político, escrevo sobre minha própria experiência na infância, certo de que também escrevo sobre muitas outras crianças que, como eu, foram empurradas para as beiradas do que se espera da infância. Não se trata, portanto, de uma narrativa isolada, mas de uma fala que ecoa, que provoca, que tensiona e que, sobretudo, afirma que a experiência é, sim, um lugar legítimo de produção de ciência, de memória e de reparação. Minha memória deixa de ser só lembrança para se tornar ferramenta de luta, reflexão e construção de futuros e de produção de ciência. É nessa encruzilhada entre o que vivi, o que aprendi e o que desejo transformar, que essa pesquisa se ergue, feito de palavras, de cicatrizes e de esperança. Quando entrei na escola me vi encurralado Antes mesmo de ingressar na escola, eu já carregava comigo a fantasia do que aquele espaço poderia significar. Em 1998, com apenas
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