123 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade cinco anos, meus olhos brilhavam ao observar minha prima Andréia Martins, já na 2ª série do Ensino Fundamental, enquanto ela preparava seu material escolar com esmero e delicadeza. Eu ficava encantado com o estojo cheio de canetinhas coloridas, com a mochila bordô e com o modo como ela organizava seus estudos. Gostava de acompanhá-la até a sala de aula, espiar os desenhos nas paredes e imaginar como seria fazer parte daquele universo mágico que, aos meus olhos, era feito de sonhos e possibilidades. Mas a escola, ao contrário da fantasia que eu havia construído, revelou-se, já no primeiro dia, como um território hostil. Assim como canta Léo Áquilla em sua música, “Quando entrei na escola me senti encurralado, lá eu estudei, apanhei até sangrei. Todos riam todo dia, me chamavam de gay. Esse passado muito foda não resisti e apaguei, cresci assustada, marginalizada”. Todos riam de mim e me chamavam de gay, embora eu sequer soubesse o que isso significava. Na minha lógica infantil, ser gay parecia significar ser feliz demais. Essa associação, tão singela quanto profunda, tornou-se um nó em minha trajetória, que só muitos anos depois pude começar a desatar. Durante a construção do Trabalho de Conclusão de Curso, obtive a oportunidade de aprofundar meus conhecimentos sobre o tema de gênero e sexualidade. Percebo que esta relação que eu fazia quando criança tem muito sentido, pois está ligada diretamente com o que a mídia produz e o seu poder de formar estereótipos, criando uma norma para o sujeito dito diferente, uma regra e um padrão assim como na heteronormatividade. A escola não era o lugar mágico. Ali, meus trejeitos, minha fragilidade física, uma criança com baixa estatura diferente da esperada para sua idade, a minha pele negra e minha voz fina me transformavam em alvo. Fui chamado de “bixinha”, agredido física e verbalmente, perseguido no pátio escolar e na rua. Tive que me esconder às vezes atrás de arbustos ou do corpo protetor de colegas meninas. As violências, disfarçadas de piadinhas, brincadeiras e outras formas estavam presentes no meu dia a dia, conforme Velho (2000, p. 12), a “violência não se limita ao uso da força física”. Ainda assim, mesmo diante de tanta dor, algo em mim não permitia desistir. Encontrei, na escola4, espaços de refúgio e resistên4 A Escola Municipal de Ensino Fundamental Castro Alves, situada no bairro Vicentina, periferia do município de São Leopoldo/RS, foi o cenário onde vivi minha infância escolar e onde se desenharam muitas das memórias que aqui relato.
RkJQdWJsaXNoZXIy MjEzNzYz