Infâncias na contemporaneidade

124 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade cia. Nas aulas de contraturno, nos projetos pedagógicos, no abraço de algumas professoras e na potência do movimento estudantil. A escola me feria, mas também me acolhia. A mesma escola que me fazia sangrar foi a que me ofereceu as primeiras possibilidades de cura. Como lembra bell hooks (2019), é nas instituições educacionais que se deve ensinar distintos modos de pensar, inclusive aqueles atravessados pela experiência negra e queer. É na práxis da escuta, do afeto e da representatividade que se constroem movimentos de libertação que não exigem assimilação à branquitude ou à heteronormatividade para existir. No meu caso, durante a infância, era fascinado por novelas como “Chiquititas”, “Floribella”, e por personalidades femininas, como por exemplo, a Xuxa. Cresci em frente à televisão dos anos 1990, e hoje percebo que um sujeito gay, não precisa necessariamente “ser feliz demais”, ser expressivo em seus gestos, atitudes e vocabulário, agindo de forma estereotipada. Segundo Fischer (2013, p. 20), “a visibilidade de gays e lésbicas na mídia esteve marcada por estereótipos que mostravam gays afeminados e lésbicas masculinizadas”, associados a concepções que tratavam a homossexualidade como pecado ou patologia. No Brasil, esse olhar também se conecta à forte influência do cristianismo, que por séculos tratou a homossexualidade como pecado. Esses padrões estão centrados na figura do indivíduo masculino, branco, adulto, heterossexual, burguês e considerado saudável, enquanto pessoas que fogem a essa norma, como mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência são frequentemente vistas como inferiores, anormais, perversas ou pecadoras (Junqueira, 2013). Essa lógica se inscreve em um modelo eurocêntrico, herança de uma educação tradicional de origem europeia, que moldou e ainda influencia a sociedade brasileira (Weschenfelder, 2021, p. 119). Esse relato é, portanto, a travessia viva de uma criança queer negra que ousou existir, resistir e permanecer. Uma criança que atravessou os muros do silêncio, dos risos que ferem, das tentativas de apagamento. Não escrevo aqui para apontar culpados, nem para transformar a mídia e a escola em vilãs. Mas é preciso reconhecer que elas também habitam nossas memórias, nossos afetos, nossas dores e aleCom seu projeto pedagógico chamado “Castro Integrado”, a escola ofertava, no contraturno, vivências encantadoras como jardinagem, teatro, natação, dança e aulas de culinária. Com uma estrutura física e pedagógica robusta, foi uma escola pública à frente do seu tempo. Até que, em 2005, com a troca da gestão municipal, seus projetos foram sendo descontinuados e sua estrutura física sucateada.

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