125 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade grias. A televisão, sobretudo nos anos 1990, foi para mim e para tantos um espelho distorcido, que, ao mesmo tempo em que oferecia refúgio nos mundos encantados das novelas e dos programas infantis, também plantava sementes de confusão, tristeza e inadequação. E, ainda hoje, mesmo com avanços na representatividade, é comum ver as existências LGBTQIAPN+ enquadradas em molduras estreitas, quase sempre associadas a uma felicidade performada, que não dá conta da complexidade, da inteireza e da diversidade real de nossas vidas. E é por isso que escrevo este artigo. Porque é preciso lembrar que somos mais do que aquilo que tentaram nos fazer acreditar. Somos mais do que os papéis que nos deram, mais do que os estereótipos que insistem em nos aprisionar. Esta sessão, então, não se fecha, ele se abre em possibilidade. Porque contar a própria história, desde um corpo dissidente, negro, queer e periférico, é sempre um ato de rasgar os roteiros prontos, de reescrever os enredos, de afirmar que existimos e que merecemos ocupar todos os espaços, com nossas dores, alegrias, contradições e potências. E se um dia eu sonhei, embalado pelas músicas, pelos mundos mágicos e pelos refúgios da ficção, hoje escrevo para lembrar que o sonho, quando encontra resistência e amor, se transforma em caminho. Estratégia de sobrevivência QUEER Minha infância foi marcada por silêncios que gritavam mais alto do que qualquer palavra. Silêncios que escondiam a dor de ser um corpo dissonante em meio a normas escolares que delimitavam o que era ser menino e o que era ser menina. Ser uma criança queer em uma escola que não reconhecia nem acolhia as multiplicidades da infância exigia mais do que força, exigia estratégia. Foi nesse contexto que, involuntariamente, fui criando modos de sobreviver queer (Cornejo, 2015). O referencial teórico aqui utilizado não é apenas um conjunto de autores, mas uma lente que me permite revisitar, ressignificar e compreender a mim mesmo. São essas vozes que ecoam junto à minha, dizendo que não estamos sozinhos, que resistir é possível. Como aponta Paul B. Preciado: Esses sujeitos, por meio de diferentes estratégias de resistência, desestabilizam a ordem discursiva de gênero e sexualidade, bagunçam as suas normas e evidenciam, em uma espécie de devir-transviado e criativo que “os corpos não são mais dóceis”. (Preciado, 2011, p. 15).
RkJQdWJsaXNoZXIy MjEzNzYz