Infâncias na contemporaneidade

126 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Já que cada gesto meu, andar, falar, sonhar, sorrir era observado, julgado, rotulado. A escola, esse lugar em que muitos encontram abrigo, para mim foi campo de batalha. E, mesmo assim, eu permanecia. Permanecia me apoiando nas professoras, nas colegas que me ofereciam abrigo, nas aulas de reforço escolar que viravam encontros de afeto e consciência, e, mais tarde, no movimento estudantil, onde descobri a política como forma de resistência e existência. Entre tantas estratégias de sobrevivência que minha infância precisou inventar, uma delas nasceu de forma quase involuntária, mas profundamente potente: me apoiar nas professoras. Foram elas que, muitas vezes, me serviram de abrigo quando a escola parecia um lugar de dor, quando os risos de escárnio cortavam mais do que qualquer castigo, e quando o mundo insistia em dizer que eu não cabia nele. E entre todas essas mulheres incríveis que cruzaram meu caminho, há um nome que mora no centro do meu coração: o da “Professora Eliane Wentz”. Ela não foi apenas uma professora. Foi porto, foi farol, foi abrigo seguro nas tempestades que me atravessaram. Foi ela quem segurou minha mão, me ensinou a falar em público, a transformar sonhos em projetos, e a acreditar que lutar por um mundo mais justo também era tarefa de quem sofre. Nos conhecemos em 2005, quando eu estava na 5ª série. Ela, que até pouco tempo era vice-diretora da escola, reapareceu como professora de Matemática e Ciências. E, naquele ano, com o fim quase total dos projetos no contraturno escolar que eram meu refúgio e minha razão de estar na escola, encontrei na sala de reforço escolar, sob seus cuidados, um novo lugar de existir. Mas aquelas aulas eram muito mais do que números ou fórmulas. Eram encontros de vida, de consciência, de afeto. Foi ali que ela, com sua voz doce e firme, começou a me ajudar a compreender os mecanismos que fazem a escola ser como é. Me explicou, com paciência, que o fim dos projetos tinha relação com mudanças na política pública, com gestões que desmontavam aquilo que, para mim, era essencial. Ela me ensinou a nomear injustiças, a compreender que não era natural aquilo que doía, e que, sim, nós, mesmo sendo crianças, podíamos fazer alguma coisa. Quando a violência da escola apertava mais forte, era para a biblioteca que eu corria. E era lá que a Profe Eliane me escondia, me protegia e, mais do que tudo, me ensinava a amar os livros. Foi ela quem plantou no meu peito a sementinha do movimento estudantil, da luta, da esperança de que a

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