127 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade escola também podia ser nossa, mesmo quando tudo parecia querer nos expulsar. A partir dali, minha trajetória se transformou. Na 6ª série, já me lançava em novos voos, inspirado e amparado por ela. Participei do projeto “Vereador Mirim” e, com 567 votos, fui o mais votado da cidade, eleito presidente da câmara, cumprindo dois mandatos. Ali começava minha caminhada no movimento estudantil, que depois se desdobrou na criação do Grêmio Estudantil da escola, onde fui Coordenador Geral por dois mandatos. Deixei de ser apenas o menino que buscava abrigo e passei a ser aquele que também criava espaços, que abria caminhos, que fazia da escola um lugar possível para mim e para outros. Aos poucos, as questões de gênero, os olhares tortos e as violências que antes me definiram, começaram a perder espaço. Me tornei, para muitos, o “Ruan do Grêmio”, e não mais só o “Ruan Bixinha”. Aquele que não apenas sonhava, mas fazia acontecer, tornando-se essa a estratégia queer criada na minha infância para permanecer na escola. Importante destacar que, por muito tempo desde sua invenção moderna, a infância foi aprisionada em imagens de pureza, ingenuidade e atemporalidade (Ariès, 1981). Esses sentidos atribuídos aos corpos infantis foram tão naturalizados que pais, mães, educadores e educadoras foram, muitas vezes, impedidos de questionar os discursos que constroem e mantêm essas verdades como únicas (Dornelles, 2005, p. 11). São discursos que se enredam dentro de sistemas estratégicos, atravessados pelo poder, e que, como nos alerta Foucault ([1978] 2006, p. 253), produzem modos de pensar a infância como algo universal, natural e fora da história. Um olhar que, ao se fixar no que se espera da infância, cega-se para aquelas que escapam, que deslizam pelas frestas, que não se encaixam nas molduras do que se espera ser uma criança (Dornelles, 2005, p. 71). São essas infâncias dissidentes que esta escrita convoca e abraça. Infâncias queer (Preciado, 2013), transviadas, bichas, sapatonas, estranhas, transgêneras: infâncias que desafiam, que desconcertam, que desobedecem. Esses comportamentos, que deveriam ser vividos com leveza, tornam-se atos políticos, formas de resistência frente à lógica binária da escola. São esses mesmos sujeitos que abrem fendas no sistema, permitindo que outras formas de ser e existir floresçam. As normas, muitas vezes naturalizadas pela cultura heteronormativa, insistem em dizer “[...] que menino tem de agir e brincar como menino; menina tem de
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