Infâncias na contemporaneidade

128 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade usar cor-de-rosa e brincar como menina brinca, que menina não pode jogar futebol e que menino não pode se maquiar” (Reidel, 2013, p. 19). Assim, ao pensar nas infâncias queer (Preciado, 2013), conecto- -as ao conceito de “sobrevivência queer” (Cornejo, 2015, p. 133), que expressa o esforço constante de permanecer vivo e inteiro diante de uma sociedade que insiste em nos fragmentar. Essa luta não é solitária e os sujeitos criam estratégias coletivas e individuais, amparadas por redes de apoio ou pela própria coragem de não se calar. De tal modo, este artigo se instala, portanto, nos terrenos instáveis e pulsantes do currículo escolar, entendendo a infância não como uma essência, mas como um produto de tramas históricas, sociais e culturais, nas quais os adultos, em suas tentativas de controle, buscam capturá-la através da produção de saberes e dispositivos de poder (Dornelles, 2005, p. 12). Contudo, há frestas. E é nelas que este artigo se debruça, para visibilizar como os corpos infantis queers, mesmo diante de normas que tentam regulá-los, se rebelam, resistem, desordenam, e, com sua potência subversiva, bagunçam as certezas, desestabilizam as verdades e reinventam as próprias existências. É por isso que educadores, precisamos “politizar aquilo que é considerado abjeção e estranho, para ressignificar e criar estratégias de sobrevivência para as vidas queer, para que sejam reconhecidas, acolhidas e valorizadas na escola”. E se viver em um corpo dissidente é, como dizem Silva e Paraíso (2017), um eterno devir, então é preciso reconhecer que “a vida queer é sempre um devir, pois cresce como grama no entre, no meio, rompendo com as formas-masculino-e-feminino, fazendo o sistema gênero fugir, [...] vazar como se fura um cano” (Silva; Paraíso, 2017, p. 8). Eu também cresci assim, como grama entre rachaduras. Também vazei, também escapei. Também sobrevivi. Mas sobreviver não foi fácil. Reviver dores, escrever traumas, reconhecer na trajetória as marcas da exclusão, tudo isso foi profundamente desafiador. Ao mesmo tempo, foi libertador. Porque pude nomear o que antes era só sentimento. Pude politizar minha história e, assim, criar sentido para a dor. É nesse entrelaçar de feridas e palavras, de silêncios e canções, de relatos e teorias, de infância e resistência, que esta escrita se constrói. Hoje, sigo como professor, pedagogo, pesquisador e sobrevivente. Sobrevivente de um sistema que tantas vezes me silenciou, me empurrou para as margens e tentou me convencer de que minha existência era ruído. Sigo resistindo à medida que compreendo

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