Infâncias na contemporaneidade

135 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade pede a mamadeira quando acorda. Esse dia ela acordou e a primeira coisa que falou foi “popó”, que queria o “popó”. Impressionante”. (Pai A, bebê 17 meses). O relato deste pai expressa que a criança associa o telefone do pai com o espaço dos desenhos, seja da Galinha Pintadinha, que é o “popó”, ou de qualquer outra animação. Além disso, faz pensar sobre o lugar de destaque que essa tecnologia pode ocupar na vida de um bebê, uma vez que, no processo de aquisição da linguagem, as primeiras palavras da criança costumam fazer referência às pessoas próximas, como mãe, pai, avós, ou a ações e objetos do seu cotidiano, os quais costumam ter também maior importância afetiva e presença mais constante no dia a dia da criança. O celular, nesse contexto, torna-se tão presente quanto o colo e o afeto, um lugar simbólico, onde a linguagem ainda em construção se entrelaça às primeiras experiências emocionais. Ainda, conforme relatado pelo pai, a primeira palavra mencionada pela criança ao acordar foi “popó”, sugerindo que o celular está muito presente no cotidiano deste bebê, sugerindo, inclusive, uma exposição excessiva ao celular. Da mesma forma, o lugar ocupado pelo celular, neste relato, é quase que equiparado ao lugar do alimento, estando no mesmo patamar de importância das necessidades básicas. Outros pais também reportaram que o celular é reconhecido pelo bebê como uma câmera fotográfica, ou seja, como um espelho de memórias que os adultos utilizam para eternizar momentos do bebê, conforme expressou uma das mães durante a entrevista: “O celular pra ela é pra tirar fotos, sabe? Então tu fala, vamos tirar foto, vamos mandar foto pra vovó, e ela já olha para o celular. Para isso a gente usa o celular, a gente tira muita foto dela. Sim, desde que ela nasceu, a gente tira muita foto e faz muito vídeo com o celular.” (Mãe A, bebê 17 meses). O uso dos telefones como um recurso para acompanhar o desenvolvimento da criança, seja por fotografias ou vídeos, já foi reportado em outros estudos (Mangan et al., 2018, Becker; Donelli, 2024a). Neste caso, são os adultos que manuseiam o dispositivo, e não a criança. Inclusive, conforme relato de uma das mães, a chamada com áudio foi introduzida para que a criança pudesse perceber que o celular era mais do que uma câmera fotográfica: “Como ela pensava que o telefone era só foto, a gente começou a fazer chamada com o áudio ligado, pra ela entender que não era só foto.” Desde muito cedo, os bebês atribuem sentidos e significados aos objetos que permeiam sua rotina, mesmo quando não os manipu-

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