Infâncias na contemporaneidade

136 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade lam diretamente. Através do olhar atento e da imitação silenciosa, constroem sentidos a partir dos gestos dos adultos. Eles também parecem associar o dispositivo a um espaço de encontros e de conversar com outras pessoas, especialmente com os avós que vivem distante, conforme ilustra o relato da mãe B (bebê 12 meses): “Às vezes ela fala com a vó dela pelo celular, com a outra vó, então a gente faz chamadas de vídeo mesmo, ou com o alto falante, para ela entender para que é um celular. Ela ainda não sabe que é pra colocar na orelha, já que essa coisa de antigamente, de que o telefone servia pra isso já não serve mais.” A mãe C (bebê 13 meses) reportou que a criança parece associar o telefone com a avó. Ela comentou ainda que o bebê se diverte com as videochamadas, e que é muito positivo para a manutenção dos vínculos com os avós: “Para ela é divertido, ela acaba interagindo com quem tá mais longe. Ela gosta, ri, passa o dedo na tela, e já sabe que é a vovó que tá ali do outro lado, e que quando quer a vovó, precisa pegar o meu telefone.” O celular, ainda que fora das mãos do bebê, já revela um novo mundo, onde imagens, sons e presenças, seja de personagens ou de familiares, participam do processo de aquisição de símbolos, e antecedem, muitas vezes, a palavra. O bebê na rede social Em tempos de redes sociais, um dos casais mencionou que criou uma conta específica para o bebê em uma plataforma digital focada no compartilhamento de fotos e vídeos, utilizada com a intenção de permitir que familiares e amigos possam acompanhar o desenvolvimento da criança: (...) ela é tipo uma digital influencer (risos)! Mas sabe o que aconteceu, é que tu acaba não vendo todo mundo o tempo todo, né? E todo mundo quer ver ela, quer saber dela. Aí eu postava na minha conta e todo mundo dizia: - ah quero ver ela, posta foto dela. Aí eu pensei, vou fazer uma conta só pra ela. A exposição, eu não acho ruim, sabe? Eu acho que quando ela é usada de forma ruim ou pra se promover, daí sim, mas a nossa é de uma forma muito tranquila, assim, só mostrar ela e nada mais. E daí ela tem a data dela, e os seguidores dela. (Mãe B, bebê 12 meses). Apesar de não ter sido um relato prevalente, considerou-se importante discutir esse aspecto, que tem se revelado como uma tendência vista nos últimos anos (Agren, 2023; Choi; Lewallen, 2018). Junto à criação de perfis infantis nas redes sociais, foi levantada a discussão sobre o fenômeno que recebeu o nome de sharenting, que é definido como o hábito que alguns pais possuem de compartilhar fotos ou vídeos dos

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