138 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade pelo relato a seguir: “Ela incomoda já. Se tá no brinquedo dela e entra uma outra coisa, tipo uma mensagem de WhatsApp, pra tu conseguir convencer ela de que tem que esperar um pouquinho, tipo, calma filha, tem que esperar um pouquinho que eu tenho que ver uma coisa. Aí ela já começa a chorar, e é bem difícil.” (Pai A, bebê 17 meses). A lógica da fluidez, presente nas interações mediadas pela tecnologia digital, revela-se como expressão de um fenômeno mais amplo, como um traço da infância contemporânea inserida em um contexto neoliberal (Araújo, 2021). Nesse cenário, o tempo é acelerado, o consumo é incentivado desde os primeiros anos e a eficiência se sobrepõe ao processo. Dessa forma, o que emerge dessas narrativas é uma infância mediada por respostas instantâneas e por uma temporalidade sem intervalos, onde o bebê aprende, muitas vezes antes mesmo de falar, que tudo pode (ou deve) estar ao alcance de um toque. E, nesse ritmo apressado, o tempo necessário para elaborar, esperar e simbolizar vai, aos poucos, se perdendo. Outro pai relatou que a criança apresenta muita irritabilidade frente à interrupção da programação, conforme aparece no excerto a seguir: “Ela não gosta que tu contrarie ela. Se ela tá brincando ali e tu desligar, se tu tirar da Marsha e o Urso é uma coisa que deixa ela muito irritada, sabe? [...] ou tu dá o que ela tinha nas mãos ou adula ela né, pega ela no colo. Mas se tiver tirado a Marsha, tem que colocar de novo no vídeo.” (Pai C, bebê 13 meses). A criança aprende a regular as suas emoções a partir das suas primeiras experiências com seus cuidadores e com o mundo (Mayes; Cohen, 2002). Na atualidade, segundo Radesky et al. (2016), alguns pais recorrem à tecnologia como uma tentativa de regular as emoções da criança. Assim, diante do choro e da irritabilidade, em vez de oferecer um colo, as telas são cedidas ao bebê para acalmá-lo, como uma espécie de chupeta eletrônica. Essa atitude, apesar de parecer uma solução momentânea, não funciona. Há evidências de que dar as telas para acalmar o bebê prejudica o desenvolvimento das suas habilidades de autorregulação ao longo do desenvolvimento (Konok et al., 2024). Além disso, conforme Konok et al., (2024), crianças que já apresentam um temperamento avaliado como mais difícil podem ser mais prejudicadas com essa prática. No caso do relato do pai C, diante da manifestação de desconforto ou irritabilidade da criança, o pai voltou a oferecer a tela na tentativa de aliviar o desconforto da criança, o que pode aumentar o risco de dependência de telas, e consequentemente gerar um uso problemático de telas no futuro.
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