139 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Considerações finais Os bebês parecem fazer diferentes usos e atribuir diferentes sentidos ao celular dos pais, sendo que o sentido atribuído pode ser influenciado pelos usos que os próprios adultos fazem de seus dispositivos. O celular, embora pensado inicialmente como uma ferramenta de comunicação para os adultos, é observado, interpretado e incorporado pelos bebês como parte do seu cotidiano afetivo e relacional. A partir do que foi relatado pelos pais, a tela parece tornar-se um espaço simbólico, onde se projetam desenhos, imagens, sons, memórias e também ausências. Ainda que esses dispositivos não estejam necessariamente o tempo todo nas mãos dos pequenos, já parecem ocupar um lugar de destaque em suas primeiras experiências sensoriais e emocionais, desde muito cedo. Para compreender o uso que os bebês fazem do celular dos pais, é preciso considerar o contexto em que as mães e os pais estão inseridos. Esses cuidadores vivem o desafio constante de equilibrar múltiplas exigências impostas na contemporaneidade, como estarem fisicamente e emocionalmente disponíveis, serem bem-sucedidos profissionalmente, presentes socialmente e atentos às expectativas culturais sobre a parentalidade. Muitas vezes, a disponibilização de recursos tecnológicos, como os celulares para a criança, surge como uma solução prática para lidar com o tempo escasso, a sobrecarga e o cansaço, assim como uma forma fácil de lidar com a labilidade emocional da criança. Além disso, a exposição da criança nas plataformas digitais é também reflexo de uma sociedade hiperconectada, que segue a lógica do capital digital, onde muitas famílias se veem impelidas a produzir conteúdo digital. Assim, a introdução do celular na vida dos bebês não pode ser vista como uma mera distração ou um vilão, mas como um reflexo da sociedade atual e das condições sociais, econômicas e afetivas que marcam a criação dos filhos hoje. Esse cenário aponta para a necessidade de planejar políticas públicas alinhadas a essa nova realidade. Faltam iniciativas que ampliem o tempo de licença maternidade e paternidade, que garantam um cuidado verdadeiramente compartilhado entre mães e pais que possibilite o acesso a redes de apoio reais e acessíveis. A responsabilização exclusiva dos cuidadores ignora que o cuidado com as infâncias é, ou deveria ser, um compromisso coletivo, sustentado por estruturas sociais que favoreçam a presença, o vínculo e a escuta. Logo, pais sobrecarregados e
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