147 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade so de sua avó quando perguntado a ela, e Henrique respondeu, em tom de pergunta, que a razão de residir com seus avós seria para que sua mãe pudesse trabalhar. Diferentemente, Valentina demonstrou maior compreensão sobre o motivo de ser cuidada por sua avó, afirmando ser devido às agressões infligidas pelo pai e pela madrasta. Nesse sentido, percebe-se que, no caso de Valentina, a troca de residência foi fator protetivo para um desenvolvimento mais saudável a partir da solidariedade familiar por parte da avó (Santana; Lima, 2012). Referente ao questionamento sobre com quem reside, apenas um participante respondeu de forma incerta. Laura respondeu que mora com seus avós, conforme a realidade, e Valentina respondeu que reside apenas com a avó. Um aspecto que pode ter contribuído para essa afirmação de Valentina é o fato de dividir o quarto com sua avó, sendo um espaço de privacidade das duas e restrito a elas, ou seja, o quarto pode estar representando a “residência” de Valentina. Diferentemente, Henrique demonstrou hesitação ao ser indagado sobre com quem reside, utilizando o termo “posar” ao invés de morar ou residir, e que varia entre dormir na casa da mãe e dos avós onde seu pai está morando atualmente. Finaliza dizendo que mora “de verdade” com sua mãe, mas que dorme na casa dos avós. Nesse sentindo, percebe-se um “esfumaçamento de fronteiras” (Ramos, 2012, p. 130) pois não há um limite claro entre a residência dos avós e da mãe, já que possui um quarto em cada casa e ocorre um compartilhamento de objetos e roupas entre as moradias, além da divisão do tempo nas duas residências, configurando quase uma guarda compartilhada informalmente. Assim, observou-se a dificuldade e incerteza de Henrique em responder essa pergunta “em relação ao seu ‘verdadeiro’ lar” (Ramos, 2012, p. 130). Quando questionados sobre quem consideram sua família, Henrique e Laura responderam praticamente conforme o que encenaram e ao que desenharam anteriormente. Vale destacar que Henrique não incluiu a mãe quando lhe perguntado sobre sua família. Já Valentina, diferente do que representou nesses dois momentos descritos, respondeu que sua família é sua avó, seu pai, sua irmã, seu irmão e sua madrasta, sendo que essa última está no lugar de sua mãe. Essa última frase de Valentina, somada a sua limitação em falar sobre a morte da mãe, utilizando letras soltas e gírias para se remeter ao falecimento, pode estar associado à dificuldade de elaboração da ausência da mãe. Possivelmente, esse é um assunto evitado no seu contexto familiar. Dessa
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