148 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade forma, a criança tende a passar por esse processo de forma solitária, sem poder contar com o amparo da família, repercutindo em impactos ainda mais negativos no desenvolvimento da criança, uma vez que os adultos possuem a ideia errônea de que se evitar o assunto, estará também evitando o sofrimento da criança e, assim, protegendo-a (Cruz et al., 2021). Podemos inferir que o luto mal elaborado da avó pelo falecimento de sua filha possa dificultar ou nebular o entendimento da Valentina sobre a ausência da mãe. Ainda que a menina não tenha construído um relacionamento com a mãe antes do seu falecimento, sente um pesar pela falta do vínculo materno, da construção de uma história e de memórias compartilhadas, assim como, possivelmente, faz Valentina imaginar e criar idealizações de uma vida melhor, na qual poderia ter sido cuidada, amada e amparada por sua mãe. Segundo Franco e Mazorra (2007, p. 504), “Com os pais, morre também a ilusão narcísica da onipotência infantil em um momento em que ela é necessária como fonte de segurança”. Assim, considera-se que a conduta mais adequada seria possibilitar o diálogo claro e aberto, a partir de um ambiente e de pessoas que consigam fornecer amparo e cuidado à criança, para que “tal experiência seja vivenciada de maneira menos danosa possível” (Cruz et al., 2021, p. 6). Outro motivo que pode ter levado Valentina a ter respondido quem considera sua família de maneira diferente dos personagens escolhidos para encenação, assim como as figuras representadas por ela no desenho, é o fato de não se sentir pertencente ou não considerar as pessoas com as quais reside como família. É interessante observar que, quando questionada “quem considera sua família”, Valentina parece se remeter às pessoas com as quais residia na casa do pai, de maneira a incluir a avó. Em relação à pergunta “com quem os participantes gostariam de morar?”, supostamente todos evidenciaram conflitiva: Laura, além de nomear os avós com quem reside atualmente, também citou desejar morar junto de seu pai; Valentina afirmou querer continuar morando com a avó; entretanto, pouco depois, expressou grande impasse em ter que fazer essa escolha pela via judicial, o que lhe gera angústia e insegurança; assim como para Henrique que levanta o questionamento se seria para sempre, dizendo que deseja, então, morar com a mãe. Cardoso e Costa (2014) apontam para a importância da participação da criança no processo judicial de disputa da guarda entre avós e pais. A decisão da escolha, quando recaída sobre a criança, pode suscitar temor, an-
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