149 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade gústia e insegurança. Ainda na mesma pesquisa, os autores reforçam a diferença entre possibilitar a expressão da criança e deixar recair sobre ela a responsabilidade pelo desfecho do processo. Mesmo que no caso de Henrique e Laura não se trata de contexto judicial, observou-se que os participantes apresentam certa ambivalência em relação ao seu desejo de com quem residir. Referente às percepções dos participantes sobre a periodicidade que encontram com seus pais, nenhum caso apresentou conflitos explícitos. Vale destacar que dois dos participantes expressaram, ao longo do encontro com a pesquisadora, afeição por outro familiar próximo. Valentina expressou seu carinho e admiração pela tia (irmã da mãe) em diferentes momentos, como quando escolheu uma personagem bonita para representar sua tia na encenação; quando nomeou algumas características dela; quando citou que cozinham juntas, entre outras atividades, representando essa tia como figura mais afetiva. Da mesma forma, Henrique demonstrou sua afeição pelo tio, relatando noites que eles dormem juntos na casa do litoral, e expressou que em todos os aniversários ganha os bonecos do exército de presente do tio, os quais adora. Dessa forma, pode-se inferir que na ausência das figuras parentais, as crianças tendem a encontrar e eleger outros familiares ou pessoas próximas para se identificarem e, assim, terem uma “continência afetiva” (Paixão; Morais, 2016, p. 82). Acerca da percepção dos participantes sobre aspectos que não gostam residindo com suas avós, a maioria das crianças respondeu que não encontram pontos negativos nessa questão – diferente de Henrique que, na sua percepção, afirma que a parte mais difícil de residir com os avós é o fato de realizar viagens sem a mãe. Nesse sentido, o aspecto negativo não está associado ao cuidado propriamente prestado pela avó, mas sim referente à falta que sente da mãe. Assim, os três participantes avaliaram de maneira positiva a moradia com seus avós, conforme resultado das pesquisas de Dias, Hora e Aguiar (2010) e de Azambuja e Rabinovich (2017). Com relação à parte que mais gostam residindo com os avós, vale destacar que Laura e Valentina descreveram aspectos de permissividade dos avós, como olhar TV, mexer no celular, assistir desenho e comer doce. Essa questão pode estar associada à representação dos avós como aqueles que “estragam” os netos devido à permissividade para com eles, juntamente com o desejo desses avós de viveram de forma agradável e suave essa experiência de
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