Infâncias na contemporaneidade

151 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade têm, em certa medida, a ver com a relação entre avó-neto e, também parcialmente, sobre a conduta deles que fazem as avós se sentirem de tal forma. Em continuidade ao que se refere aos possíveis sentimentos despertados em Valentina, o desconforto e a culpa podem estar associados também, de forma inconsciente, à morte da mãe. Podemos inferir que a Valentina carrega um peso: o falecimento da mãe no momento do seu parto. Assim, sentimentos inconscientes de culpa podem estar sendo associados pela menina por ter sido responsável pela morte da mãe. Isso relaciona-se com a encenação de uma situação familiar, na qual Valentina se coloca à parte da família, sugerindo sentimento de isolamento, de não merecimento ou senso de injustiça por ter sobrevivido e integrado a família no lugar que poderia estar sendo da mãe. Esse pesar sentido por Valentina de forma inconsciente pode estar associado ao conceito de “culpa do sobrevivente” (Fimiani et al., 2021), no qual a pessoa sente-se culpada por ter sobrevivido em um contexto em que outras pessoas morreram, assemelhando-se à situação vivida por Valentina que sobreviveu enquanto a mãe faleceu em seu parto. Considerações Finais A partir do presente estudo, foi possível compreender as percepções das crianças sobre serem cuidadas em tempo integral pelos avós. Espera-se que novas pesquisas sejam realizadas acerca dessa temática a fim de possibilitar reflexões e o fomento da literatura existente. Torna-se necessário aproximarmos o olhar para a perspectiva da criança sobre essa situação, averiguando de quais modos as relações se dão nesse contexto e de que maneira são entendidas pelos netos. Tratando-se de um fenômeno emergente, identifica-se a necessidade de subverter essa invisibilidade. Referências ARAÚJO, C. P.; DIAS, C. M. S. B. Avós guardiões de baixa renda. Pesquisas e Práticas Psicossociais, São João del-Rei, v. 4, n. 2, p. 229-237, 2010.

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