156 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Conforme Huizinga (1938/2012), o brincar é em si um fenômeno cultural, e é por meio dele que a civilização surge e se desenvolve. Ele é peça fundamental para um desenvolvimento bem-sucedido, e configura-se como a principal atividade da criança, sendo também observado em filhotes de outras espécies de animais (Mayes; Cohen, 2002). Ao longo do seu desenvolvimento a criança vai adaptando o brincar às suas necessidades. Inicialmente, no período que está se separando da sua figura de apego e descobrindo o mundo, o bebê brinca com o corpo da mãe e com o seu. Depois, ao passo que cresce, vai explorando o ambiente a sua volta e descobrindo novas formas de brincar. Então as brincadeiras vão incorporando novos elementos e a criança vai simulando algumas das situações que presencia a sua volta através do brincar de faz de conta. A criança, quando brinca de faz de conta, incorpora papéis sociais, regras e condutas morais, o que possibilita a criação da sua própria realidade, contribuindo com a sua inscrição na sociedade enquanto um sujeito que pensa, que tem seus desejos e vontades próprias, diferenciando-se de seus cuidadores. Autores clássicos da Psicologia do desenvolvimento destacaram a centralidade do brincar no desenvolvimento infantil. Na década de 1960, Winnicott (1985) postulou que, por meio do brincar, a criança pode expressar prazer e controlar angústias e conflitos da infância. Para Vygotsky (2007), sob a perspectiva construtivista, o “brinquedo” consiste em um mundo imaginário e de ilusões em que os desejos não realizáveis podem ser concretizados. Jean Piaget (1975), por sua vez, enxerga o jogo simbólico como forma de assimilação da realidade no estágio pré-operatório, possibilitando a ampliação de habilidades cognitivas e emocionais. Do ponto de vista biológico, o brincar é visto como parte central do desenvolvimento cognitivo e neurológico, podendo servir de importante ferramenta na estruturação de cérebros habilidosos e flexíveis (Smith, Cowie; Blades, 2007). Conforme Figueiró (2012), o próprio brincar é responsável por programar a estrutura neuronal, possibilitando, de modo progressivo, modos de brincar mais complexas. Segundo o autor, crianças que pouco brincam podem, inclusive, desenvolver cérebros 20 a 30% menores do que o considerado esperado para a sua faixa etária. Além de ser fundamental no aprimoramento de habilidades cognitivas e motoras, o brincar ocupa espaço privilegiado na constituição da subjetividade. Ele permite que a criança seja capaz de construir uma
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