Infâncias na contemporaneidade

157 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade realidade a partir da fantasia, buscando na imaginação um modo de simbolizar, estruturar seu conhecimento e elaborar um meio de conviver com conflitos (Winnicott, 1965/1985; Bassols et al., 2013). Ao contribuir com a socialização ele também torna possível a aquisição da linguagem e de demais signos coletivos (Affonso, 2012). Brown (2009), afirma que o brincar é tão vital quanto o sono ou a alimentação, e sua ausência prejudica o desenvolvimento da empatia e da criatividade, impactando a saúde mental. Na clínica psicológica, o brincar é amplamente utilizado como dispositivo de acesso ao inconsciente infantil. Além de fundamental no desenvolvimento socioemocional e na constituição subjetiva da criança, ele é muito utilizado na clínica infantil para acessar a criança, porque, durante o jogo, a criança expressa-se ludicamente e faz eclodir seu mundo interior. Melanie Klein, Anna Freud e Donald Winnicott, autores da psicanálise, foram os precursores do uso do brincar no setting terapêutico, utilizando-o como dispositivo facilitador para trazer à tona conteúdos reprimidos e relevantes para a elaboração dos conflitos infantis. O brincar como ferramenta de transformação em contextos adversos O brincar é um direito da criança. No Brasil, através do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, ficou estabelecido que a criança e o adolescente têm direito de brincar, praticar esportes e divertir-se. Apesar de constar na lei, sabemos que o direito ao brincar não é garantido para muitas crianças. Em contextos de adversidade e emergências, como em zonas de guerra/conflitos ou durante catástrofes climáticas, o brincar carrega o potencial de dar um novo sentido às experiências das crianças (Fearn; Howard, 2011), possibilitando o enfrentamento das situações adversas e garantindo a sua sobrevivência psíquica. Apesar destes contextos não serem favoráveis para o desenvolvimento infantil, se for oportunizado à criança um espaço para que o brincar aconteça, ele vai existir. Conforme dados do relatório emitido pela Associação Internacional do Brincar (IPA) (2017), as crianças, nestes contextos, brincam com outras crianças e criam seus brinquedos a partir das sucatas que encontram, reforçando o que já sabemos – que o brincar pode acontecer com ou sem a presença de materiais, uma vez que qualquer objeto que estiver ao alcance da criança pode tornar-se um brinquedo.

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