158 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade De acordo com o IPA (2017), em situações de crise os tipos de brincar são influenciados pela idade das crianças, capacidade da criança e características do espaço onde é permitido brincar, havendo um predomínio do brincar livre. Nestas circunstâncias, o brincar é notado como uma manifestação cultural necessária para que as crianças consigam lidar com as dificuldades que se impõem, indo ao encontro do brincar enquanto um dispositivo ético e político de resistência e emancipação, conforme Paulo Freire (1996) e bell hooks (2013), o qual não se resume a uma ferramenta didática, mas a um espaço de humanização e construção da autonomia. As repercussões da revolução digital no brincar Nos últimos anos, o brincar, tal e qual conhecemos, passou por transformações significativas, impulsionadas pelo advento da internet. As crianças têm sido introduzidas às novas telas, seja do computador ou dos dispositivos móveis, o que tem também repercutido na sua forma de brincar e explorar o mundo (Becker; Viana; Donelli, 2022). Assim, a revolução digital propiciou não apenas mudanças na vida dos adultos, como o acesso facilitado a notícias e informações em tempo real, como também modificou os modos de viver, de relacionar-se, e de brincar (Konok et al., 2016). Foi em 1940 que surgiu nos Estados Unidos e na Inglaterra o primórdio do que hoje se chama notebook, tablet, smartphone. E em 1960 é que os computadores passaram a ser comercializados, visto que anteriormente eram utilizados apenas para fins científicos (Lévy, 1999). Em uma escala de tempo humano, pode-se dizer que o surgimento dos primeiros computadores ainda é um fenômeno recente. Além disso, termos como televisão digital e Google existem há menos de 30 anos (Strasburger et al., 2011). Hoje, com o acesso irrestrito à internet por meio dos dispositivos móveis e das redes de comunicação sem fronteiras, é possibilitado que a criança vivencie tudo o que é veiculado nas mídias o dia inteiro, a qualquer hora ou lugar. Observa-se que, diante deste novo cenário, o brincar, até então conhecido, cedeu lugar ao brincar com dispositivos digitais móveis, principalmente smartphones e tablets, e passou a acontecer entre a criança e o dispositivo, em uma interação da criança com a tela, demandando de uma experiência tecnológica tátil (Becker; Viana; Donelli, 2022).
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