Infâncias na contemporaneidade

16 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Introdução A psicanálise teve início a partir do desejo de Freud de compreender e desvendar o funcionamento da mente humana, considerando o comportamento e os sintomas que suas pacientes histéricas apresentavam. Sua curiosidade e intenso desejo de fazer da psicanálise uma ciência levou Freud a desenvolver o método psicanalítico, integrando teoria e prática. Suas observações, reflexões, hipóteses e trocas com colegas aprimoravam a teoria e geravam avanços na prática clínica. Freud e seu grupo edificaram o que atualmente embasa a prática clínica de muitos profissionais. Dentre todo o aparato conceitual e clínico desenvolvido ao longo da história da psicanálise, destaca-se para este estudo o conceito e instrumento técnico denominado contratransferência. O objetivo do presente artigo é compreender as manifestações e o manejo da contratransferência na análise infantil. Pretende-se refletir e discutir o conceito vinculado à análise infantil, com frequência semanal de duas sessões, ao longo de um ano, de uma menina de dez anos que foi separada de seus pais biológicos aos dois anos e adotada aos cinco. Inicialmente, será abordado o conceito e a evolução da técnica psicanalítica a respeito da contratransferência e, em seguida, será apresentado um recorte clínico que evidencia o material contratransferencial. A contratransferência no percurso histórico da psicanálise Em 7 de junho de 1909, Freud endereçou uma carta a Jung contendo sua percepção sobre o envolvimento entre Jung e sua primeira paciente, Sabina Spielrein. Ele nomeou os sentimentos do psicanalista suíço em relação à paciente como contratransferência (gegenübertragung) e afirmou ser um “problema permanente” (Freud; Jung, 2023, p. 336) para os analistas. Pontuou que o contato com experiências transferenciais intensas no contexto clínico seria difícil de evitar, e, ao mesmo tempo, necessárias. Serviria para o desenvolvimento de uma “carapaça” (Freud; Jung, 2023, p. 336) suficientemente espessa e para aprimorar o domínio da contratransferência. Jung concordou com o posicionamento de Freud e nomeou seus afetos como “superestima intelectual” (Freud; Jung, 2023, p. 337). O assunto transcorreu em torno da inevitabilidade dos processos transferenciais e contratransferenciais, e da in-

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