166 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Nesse ponto, o que os autores salientam é que essa fase tão importante e fundamental para todos, precisa ser vivida em sua plenitude. Assim, entendemos que as experiências com as telas transformaram esse tempo de viver a infância de forma muito significativa. É muito comum em um restaurante, por exemplo, observar crianças muito pequenas acompanhadas de seus familiares com os “olhinhos” vidrados no celular, assistindo vídeos ou até mesmo jogando. O mais interessante é a destreza com que utilizam as telas, sem precisar muitas vezes de recursos de alfabetização, pois como nativos digitais aprendem a manusear a tecnologia bem antes de aprenderem a ler e escrever. A esse respeito, Palfrey e Gasser (2011, p. 13) afirmam que é impressionante como a era digital transformou o modo como as pessoas vivem e se relacionam umas com as outras e com o mundo que as cerca. Essa reflexão foi apresentada pelos autores há mais de dez anos, mas nunca foi tão atual, principalmente no que se refere ao uso das tecnologias. Quando falamos de crianças este impacto fica ainda mais evidente. Isso porque a criança do século XXI nasceu em um mundo hiperconectado, marcado por avanços tecnológicos e profundas mudanças, sociais e culturais, que afetam sua forma de brincar, comunicar e interagir com os demais. E mesmo que não tenham acesso direto às telas, atualmente as crianças se desenvolvem em ambientes mediados por telas, algoritmos e redes sociais, redefinindo sua própria forma de lidar com a realidade que as rodeia. No entanto, esse cenário, que oferece inúmeras possibilidades de acesso ao conhecimento, também traz riscos ao significado da essência do brincar, que muitas vezes pode incluir o contato com outras crianças e também o contato com a natureza. Impactos no processo de aprendizagem Estudos como os da TIC Kids Online Brasil (2023) demonstram que crianças a partir dos dois anos já interagem com celulares e tablets com grande autonomia, mesmo antes da aquisição da leitura e da escrita. Isso ocorre porque os aplicativos infantis são desenhados para serem intuitivos e responsivos ao toque, promovendo uma alfabetização digital sensório- motora. Nesse aspecto, percebemos que a digitalização se sobrepõe à alfabetização – ou no mínimo acontece primeiro. Segundo Becker (2013), esse domínio técnico precoce não equivale, contudo, à compreensão crítica dos conteúdos, o que exige mediação ativa dos adultos.
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