17 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade viabilidade da atuação da contratransferência (Freud; Jung, 2023). Esse é um dos primeiros diálogos, na história psicanalítica, sobre essa temática. Observa-se que estavam descobrindo, dialogando e compreendendo a psicanálise no contexto empírico. Em 30 e 31 de março de 1910, ocorreu o II Congresso Internacional de Psicanálise, em que Freud (1910) apresentou a contratransferência à sociedade psicanalítica como uma possível inovação. Afirmou que seria um fenômeno que ocorre quando os sentimentos inconscientes do psicanalista são mobilizados pelo paciente por meio da transferência. Freud (1910) indicou a autoanálise como um caminho necessário para o desenvolvimento do domínio da contratransferência. Como um ponto de atenção permanente para o analista, Freud reconheceu que a contratransferência ocorre constantemente e, por se tratar de afetos que inundam subjetivamente o profissional, poderia se tornar um problema caso não tivesse realizado uma análise profunda de si mesmo. A autoanálise, que posteriormente cedeu lugar à análise, tornou-se um caminho sem volta na formação do psicanalista. Freud (1910) afirmou que o tratamento de um paciente avança até o ponto em que os complexos e resistências do analista permitirem. Compreende-se, portanto, que o processo de autoconhecimento é o primeiro passo para que um analista possa fazer uso adequado da contratransferência como instrumento técnico. Ferenczi (1919; 1927) reforçou fortemente a necessidade da análise na formação psicanalítica. Segundo o psicanalista húngaro (1919), o analista não deve se entregar aos seus afetos e, ao mesmo tempo, não deve escondê-los ou negá-los, tornando-se frio na relação com o paciente. Ele deveria ser capaz de desempenhar seu papel na transferência e ter o domínio da contratransferência. Dito de outra forma, para que o analista não atue seus afetos, deve compreendê-los profundamente. Ferenczi (1919; 1927; 1932), em sua obra, elevou a importância da contratransferência ao nível de outros fenômenos que ocorrem no setting analítico. O enfant terrible da psicanálise condicionou à análise o desenvolvimento da capacidade de não atuar os afetos e, ao mesmo tempo, não os esconder, tornando-se apto para “sentir com” e para desempenhar seu ofício com modéstia, humildade, empatia, paciência e controle do próprio narcisismo. Ferenczi (1919; 1927) deu início ao que diversos psicanalistas (Heimann, 1950; Racker, 1948; 1953; Winnicott, 1947) discutiram no
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