19 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade A consciência de que o psiquismo do infante está em desenvolvimento e, consequentemente, não possui todos os recursos psíquicos necessários para decidir, refletir, avaliar, julgar e agir é primordial. Aspectos infantis do psiquismo são manifestados naturalmente e, na medida em que o vínculo analítico se fortalece, a criança fácil e rapidamente pode aumentar a intensidade e a naturalidade nas manifestações de si. Considera-se que o processo analítico durante a infância possa contribuir para a criança realizar adaptações e mudanças no tempo e espaço atual. Freud propôs duas vias no percurso analítico: “per via de porre” e “per via de levare” (Freud, 1905, p. 336). A primeira via indica que a análise acrescenta e fortalece as linhas psíquicas empobrecidas ou pouco desenvolvidas. A segunda via propõe a retirada de excessos na escultura psíquica, facilitando a manifestação de conteúdos inconscientes. A análise infantil no tempo e espaço atual toma a “via de porre” e coloca o analista humano, incluindo seu corpo, no cenário que integra o desenvolvimento da criança. A alternância com a “via de levare” se faz necessária, porém com ênfase em ampliações, construções, oportunidades, que acrescentem objetos saudáveis para o desenvolvimento infantil. A criança convida o analista para um envolvimento direto no seu processo terapêutico. Implica-o e o invoca em sua capacidade empática (Machado, 2009) de cuidar, amparar e acolher, desafiando-o a manter essa postura mesmo quando transfere seus objetos e afetos destrutivos. A relação entre a dupla é transpassada pela linguagem da ternura (Ferenczi, 1932), cujos afetos estão mesclados com a ludicidade e amorosidade. Dessa forma, a linguagem da ternura traduz a realidade empírica, tornando-a digerível no processo de integração psíquica da criança. Tal processo inter-relacional configura um território que é sagrado, intocável pela linguagem da paixão (Ferenczi, 1932). A criança-paciente e a criança-analista entram em cena. A criança mobiliza os impulsos paternos e maternos, impulsos pedagógicos, bem como sentimentos agressivos, como a raiva, o medo, a culpa no analista. Na medida em que ele estabelece contato com suas próprias pulsões e afetos, a contratransferência, se estiver seguro com esse conteúdo, poderá fazer o manejo e refletir os objetos transferidos, propiciando elaboração, ressignificação e a formação de objetos internos no paciente. Isso será possível somente no campo da ternura que opera pela ludicidade e pelo brincar.
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