Infâncias na contemporaneidade

20 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade Em analogia à figura do boneco João Bobo, utilizada por Ferenczi (1928), a análise de crianças gera um movimento para além dos reflexos, que implicam e envolvem o analista na relação transferencial. Ocorre também uma alternância entre a criança-analista e o adulto-analista. Realizam-se intensos movimentos de regressão e retorno ao tempo atual na medida em que o paciente desenvolve e revisa os próprios objetos internos. Mannoni (2003) afirmou que o analista se defronta com a representação de sua infância, mobilizando material arcaico como: medos, defesas, impulsos e desejos. Machado (2009) concordou e complementou que a contratransferência é mais intensa no atendimento infantil, pois decorre de fortes sentimentos, como sedução e agressão, que a criança transfere ao seu par analítico. Nesse contexto, a profunda e longínqua análise do analista, costurada por reanálises, torna-se imprescindível. A elasticidade e a flexibilidade unidas a uma ampla capacidade de contato e manejo do material contratransferencial são condições inseparáveis e indispensáveis na análise psicanalítica de crianças. Se o manejo da contratransferência é um desafio na análise de adultos, na análise de crianças, é ainda maior. Recorte do caso clínico3 Lili iniciou o tratamento por necessidade pessoal, pois eu estava em busca de um paciente que pudesse ingressar como participante da minha pesquisa de doutorado. A criança deveria ter entre seis e onze anos de idade e ter convivência com a família adotiva por mais de três anos. Por intermédio de uma casa de acolhimento, tomei conhecimento de um grupo de pais e crianças adotadas, cuja coordenadora se disponibilizou a ler e avaliar o projeto. Após a avaliação do projeto e dos critérios de seleção dos participantes, ela divulgou no grupo e, segundo ela, surgiram três famílias interessadas. Com base no conhecimento da profissional sobre a história das crianças, das famílias e respectivas condições econômicas, decidiu-se por uma criança de nove anos, com vivências traumáticas na primeira infância e adotada aos cinco anos. Chamarei a paciente de Lili e a mãe de Lola, nomes de personagens da série infantil “Meu amigãozão”. Durante o período de um ano, foram realizadas seis sessões com a Lola, duas iniciais e quatro ao longo do ano, um encontro com 3 O caso apresentado será relatado pelo primeiro autor.

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