21 Cadernos do PAAS, volume 12 - Infâncias na contemporaneidade a professora e coordenadora pedagógica da escola e em torno de 85 sessões com a Lili. A frequência foi de duas sessões semanais. Lili é a quarta de um grupo de cinco irmãos. Em 2016, aos dois anos de idade, ela e seus irmãos maiores foram levados para um abrigo. Sua mãe estava grávida. Receberam visitas dos pais e da avó até o início de 2019 e, logo após, iniciou-se o processo de destituição do poder familiar. Lili foi adotada em outubro de 2019. Seu irmão e sua irmã foram adotados por outras duas famílias. A irmã mais velha não foi adotada, pois costumava fugir da casa de acolhimento. Começou a namorar e foi morar com o namorado por volta dos treze anos de idade. Lili morou na casa de acolhimento até os cinco anos, quando foi adotada por sua mãe, Lola. Segundo a mãe, a adoção foi tranquila e positiva. No início do mês de agosto de 2019, foi informada sobre a possibilidade da adoção de Lili e começou a visitá-la na casa de acolhimento em 12 de agosto do mesmo ano. Visitava diariamente, exceto aos domingos: “Aí, sempre foi muito tranquilo, assim, eu ia todos os dias. Ou eu ia meio-dia ou eu ia no final da tarde né, todos os dias, eu não falhava um dia. Só não ia domingo porque não era permitido” (SIC). Atualmente, a família é composta por Lili e sua mãe. Palavras de Lola: “E se tu perguntar pra ela quem é a família dela que mora em casa, ela vai dizer que é nós, o cachorro e os peixes. E às vezes ela fala o papagaio. Que a gente tem um quadro de um tucano que ela insiste que é um papagaio. E aí ela diz que o papagaio é irmão dela também”. A avó e o avô materno compõem a família ampliada de Lili. No tratamento de Lili, o dueto transferência e contratransferência estava na crista da onda o tempo todo. Em diversos momentos, o destaque foi para a contratransferência. O vínculo com ela ocorreu de maneira rápida. Sem ao menos me conhecer, segundo Lola, Lili esperou ansiosamente o momento de sua primeira sessão de terapia, enquanto eu esperava dificuldades na formação do vínculo. Parecia já me conhecer de longa data. Aproveitava ao máximo as sessões, brincando alegre e divertidamente, criando níveis de dificuldade cada vez maiores. Ficava chateada quando eventualmente não tínhamos uma sessão. Ao chegar, manifestava criativamente seu desejo de antecipar o início e postergar o término do nosso encontro. Buscava estabelecer o controle das atividades e do analista. As brincadeiras se repetiam por diversas sessões e ela se recusava a fazer o que não desejava ou apresentava dificuldade. Manifestava sua raiva através de sua voz firme, olhar severo
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